quinta-feira, 27 de junho de 2013

O sobrevivente

Quando a história é muito mais interessante que a doença...

Virgílio nasceu antes dos nove meses. Tinha pressa. Filho mais velho, o pai foi quem escolheu seu nome - queria um nome "diferente". Passou a infância no interior. Aos 12 anos, começou a fumar maconha e a trabalhar como DJ no forró de sua mãe. Um ano depois, conheceu a cocaína. Aos 14 anos, engravidou uma mulher de 23. "Virei adulto." Faltando uma semana para o nascimento do filho, a mãe de Virgílio se suicida (enforcamento). Ele ficou casado durante 10 anos e teve mais uma filha. Separou quando foi preso por tráfico de drogas. Ele ficou preso durante um ano e oito meses. Saiu da cadeia "desestruturado de tudo"e voltou para o tráfico. Foi preso várias outras vezes, torturado pela polícia, e tomou uma surra dos parentes da ex-mulher. "Juntaram oito para me pegar. Eu jurei vingança. Peguei um por um."Pouco depois, foi ameaçado de morte por um traficante e se escondeu no mato. O filho levava comida e bilhetes da ex-mulher. Um belo dia, descobriram seu esconderijo. Tomou um tiro no pé direito, um golpe de picareta na cabeça e apanhou muito. Quando acharam seu corpo, começaram os rumores de que estava morto. O povo começou a ajuntar. Como o corpo estava muito ensanguentado, alguém o cobriu com um lençol branco até que chegasse o rabecão. O rabecão chegou e viram que ele estava vivo. Foi levado para um pronto-socorro da capital. Perdeu o baço, o pulmão foi perfurado e o estômago lacerado. Além disso, fraturou várias costelas e ambos os braços. Mas ele sobreviveu... Quando teve alta, decidiu permanecer na cidade. Tinha medo de voltar e ser assassinado. Sentia falta dos filhos. "Para não ser abandonado, abandonei todo mundo." Morou na rua, voltou para o tráfico e foi preso novamente. Foi sentenciado para prestar serviço em um albergue municipal. A assistente social gostava dele. Virgílio tinha dificuldade para dormir e enchia a cara de álcool, cocaína e "remédio controlado." Um dia, bem cedo, viu uma senhora cheia de filhos dentro de uma padaria. Os meninos pediam alimentos e ela não podia comprar. Ele tinha gastado tudo o que tinha com crack. Ficou com dó. Chegou no albergue e tentou se enforcar. "Tudo para fugir do mundo que me sobrou." Mas ele sobreviveu... Foi encontrado inconsciente e novamente levado para o pronto-socorro. Algumas semanas após a alta, voltou para o albergue e foi encaminhado para um  serviço de saúde mental. "Já passei por uns quinze psiquiatras e não gostei de nenhum. Queriam me internar, mas lá só tinha gente doida. Dei caô em um deles e fugi."Nessa época, o serviço voluntário no albergue terminou e Virgílio voltou para as ruas. "Situação de rua eu não aguento. Meu fascínio sempre foi o bar, aqueles com gente bem trajada. No interior, eu ia lá vender droga para os bacanas." O serviço de saúde mental conseguiu localizar uma tia de Virgílio e esta alugou um quarto para ele. Virgílio não conseguia ficar sozinho em lugar fechado e tomou uma overdose. Sobreviveu e decidiu ir para o Rio de Janeiro. "Morei 22 dias na Barra da Tijuca. Fiz amizade com a dona de um quiosque e alugava cadeiras para as celebridades. Eu dormia lá." Com o tempo, começou a fazer programas com estrangeiros. Conheceu a cocaína boa, a tal "escama de peixe." Conheceu também a heroína. Passou a colocar calmante na bebida dos gringos e roubar seus pertences. Um dia, roubou a heroína do cliente, mas se esqueceu da água destilada. Sem pensar duas vezes, puxou o próprio sangue na seringa e com ele diluiu e esquentou a heroína. Acordou alguns dias depois no pronto-socorro. Num desses episódios de "Boa-noite, Cinderela",    a vítima começou a passar muito mal e Virgílio ficou com medo de que ele morresse. Esperou o dia amanhecer e desceu escorando o gringo. Falou na recepção do hotel que ele tinha bebido demais. "Fiz igual ator da Globo e eles chamaram um táxi. Dois quarteirões depois, desci do táxi e vazei."Voltou para BH. Foi morar na cracolândia. Quando tinha dinheiro, ia dormir num hotel barato das proximidades. Ás vezes, fazia bicos no Ceasa. "Ficava ligado umas 80 horas." Um tempo depois, começou a frequentar um projeto evangélico na cracolândia. "No começo, eu ia lá só para comer e tomar banho quente. Um dia eu conversei com o pastor e decidi ficar."Foi convidado para ir para uma fazenda de recuperação mas não tinha documentos. Foi tirar a segunda via da identidade e descobriu um mandado de prisão contra ele. Ficou preso por quatro meses. Mas sobreviveu... Virgílio só tem 30 anos!