domingo, 18 de janeiro de 2015

A dentadura

Quando eu trabalhava no CAPS, tinha um paciente que estava sempre com a dentadura suja: era angu, couve e feijão a olhos vistos. Eu falava repetidamente sobre a importância de se fazer uma boa higiene na prótese e nada. Um dia não aguentei: fiquei horas escovando, limpando, até sapólio usei. Quando entreguei a dentadura, o paciente, com o maior sorriso no rosto, me disse:
- Você quer casar comigo? Assim você pode lavar a minha dentadura todos os dias.

Colaboração: Silvana Melillo 

Aconteceu no plantão…

Eu estava de plantão, o hospital em obras, andaime pra tudo em quanto é lado. De repente, vejo um paciente da psiquiatria descendo pelo andaime. Ligo para a portaria que corre para pegá-lo, porém só conseguem alcança-lo lá no viaduto Santa Tereza. Acho que deveriam inscrevê-lo na próxima São Silvestre.

Colaboração: Silvana Melillo 

As reuniões...

Todo mundo já teve que participar dessas reuniões “preguiça” no serviço de saúde mental. Idealizadas pelos colegas não médicos, geralmente elas atrasam nosso trabalho por fechar as nossas agendas lotadas e tratam de reinventar a roda em discussões estéreis. O fato ocorreu numa dessas reuniões: com o intuito de tornar-se um "espaço democrático" como a boa cartilha demagógica manda, estavam todos sentados em círculo nas cadeiras. Inclua aí o pessoal da faxina, da cozinha, médicos e psicólogos. Em pauta, estava o tema do "bullying". Uma estagiária de psicologia havia pregado o santinho de formatura dela em um mural do CAPS e algum maldoso lhe desenhou chifrinhos e um cigarro na foto da coitada. Aos prantos, a moça soluçava, consolada pelas colegas. No meio daquele silêncio todo, sr. Romildo, vigia do CAPS, faz a melhor das intervenções: "Moça, se você tá chorando por causa dum trem desses, cumé qui você vai fazê pra atender os otros?"

Colaboração: Fabrício Durão 


sábado, 17 de janeiro de 2015

Pérola 39



- Vim na consulta porque não estou bem. Para ser sincero, não estou nem saindo de casa, tá tudo ruim. As coisas perderam a graça, parei até de cantar. E olha que eu já viajei muito por conta de shows.
- O sr. canta que tipo de música?
- Sou MC...

Respiro fundo...

domingo, 11 de janeiro de 2015

No trajeto…

Ocorreu em meados de 2008, durante a transferência de um esfaqueado do interior para o pronto-socorro da capital. O sujeito havia levado uma peixeirada do irmão no abdome. Ambos, claro, estavam sob efeito de álcool. Na ambulância, estavam eu, o técnico de enfermagem (um senhor mais velho e afetado, a quem chamarei de Antônio) e o paciente. No meio do caminho, o paciente começa a acordar.... e pergunta: "pra onde vamo....urgh." Antônio, então,  responde ao recém acordado: "não se "preocupe...em breve você estará sendo abeeeeerto como um porco."

Colaboração: Fabrício Durão 

As primeiras experiências – parte 2

O segundo episódio, com a mesma paciente, ocorreu não muito tempo depois. Perguntei se ela escutava pessoas conversando fora da cabeça dela, sobre vozes de comando, idéias de referência ou algum sinal psicose mais grave. Percebi que estava menos agitada e a enfermagem relatou que dormia bem. Disse a ela:
- A senhorita está ótima. Está de alta. Estou apenas com um pequeno problema: não consegui contato com sua irmã ou sua mãe no telefone que temos no prontuário (ela mora a mais de 400 km daqui). Como fazemos? 
Ao que ela responde: 
- Peraí doutor. 
Pegou a Bíblia da cabeceira e começou a utilizá-la como  se fosse um telefone: 
- Mãínha? Que dia a senhora vem? 
E falou para mim: 
- Ela vem amanhã, doutor.... 
Saí pasmo do consultório e vi que precisava aprender um pouco mais de tudo. Aumentei a dose do antipsicótico e disse depois: - Ué, ela não veio. A paciente "ligou" novamente e disse que a mãe tivera um imprevisto. Fui aumentando a dose do antipsicótico e observando. Quando ela me disse que o telefone havia parado de funcionar e que sua mãe não mais conversava com ela, dei alta de verdade.

Colaboração: Márcio Candiani 

As primeiras experiências…

Nas primeiras semanas como residente de psiquiatria, passei por duas situações com a minha primeira paciente internada:

A senhorita em questão, 34 anos, tímida, educada, bem apessoada apresentava um quadro de esquizofrenia paranoide e várias internações, conforme  havia lido no prontuário - não sabia diagnóstico, psicopatologia ou fazer entrevistas, como qualquer psiquiatra residente na primeira semana.

Ela tinha perdido alguns dentes, mas "a lataria" estava razoável pela ectoscopia. Lí o prontuário no posto de enfermagam e fui ao consultório atender minha paciente, vestida com uma roupa marrom-hospicio. Perguntei donde vinha tal moça, se era casada, se tinha filhos e para qual time torcia... Estabeleci algum vínculo e tentei colher alguns dados de alterações psicopatológicas. A paciente interrompe, abruptamente, com os olhos estatelados, e me pede: - Dr., posso ir ao banheiro? Digo: - Claro! 

Quando ela volta digo: - Mas você foi muito rápida. Ela responde: - É que eu fui escovar os dentes... E pulou em cima de mim tentando me beijar a boca. Agarrou-me e pedi socorro. Gritava pelos enfermeiros. Demorei bastante a me desvencilhar, todo manchado de batom, com a roupa amassada e muitos arranhões. Corri até o posto de enfermagem, onde todos estavam rachando de rir. Depois de muitas risadas, me contaram que a senhorita sempre fazia isso com os residentes. Era como um trote, um ritual de passagem para quem desse sorte de chegar aquela enfermaria quando a ilustríssima estava internada.


Colaboração: Márcio Candiani