Pérola do plantão da virada:
- Por que o sr. veio ao hospital?
- Não sei. Pergunta pra minha esposa. Foi ela que me trouxe!
- Respiro fundo 2014 vezes...
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
domingo, 22 de dezembro de 2013
Cenas 2
Cenas de um paciente que tem transtorno bipolar...
Cena 1: o paciente, após longa querela do INSS, finalmente é aposentado por invalidez. Como o valor da aposentadoria é pequeno e a ociosidade é grande, começa a trabalhar como ambulante. Um belo dia recebemos um telefonema no CAPS: o paciente montou uma barraquinha para comercializar DVDs piratas. Local da barraquinha: em frente a agência do INSS!
Cena 2: esse mesmo paciente entra em crise, crise das bravas... Passa dias e noites sem dormir escrevendo livro, doa todos os seus pertences e faz muitas compras na cidade (sem ter a menor condição de pagar, compra de tudo, especialmente roupas de grife, jóias e perfumes importados). Acredita que é o novo Michael Jackson, multimilionário... Detalhe: como é louro de olhos verdes, diz ser o Michael Jackson pós-vitiligo. E esse novo Michael Jackson tem várias tatuagens, além de usar anéis e colares com nítido exagero. Eis que um dia, o paciente briga na rua e quebra um vidro do posto de gasolina. A polícia é chamada. Como já é conhecido na cidade, gentilmente é conduzido para o hospital psiquiátrico público. Chegando lá, por falta de vaga e acredito também que pela aparência, é sedado e encaminhado para uma clínica de tratamento de dependentes químicos. Detalhe: não bebe, não fuma e nunca usou outras drogas... Who's bad?
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Pérola 18
Paciente falando sobre seu divórcio:
- Depois dessa confusão toda, eu fiquei hipertensa. Antes eu era hipotensa, hipotensa até demais...
- Depois dessa confusão toda, eu fiquei hipertensa. Antes eu era hipotensa, hipotensa até demais...
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Pérola 17
- Dra., meu irmão fez uma cirurgia cardíaca e está internado no cti de um hospital em Montes Claros. Preciso de "uns dias" de atestado para ir visitá-lo.
- Mas VOCÊ está doente?
- Não. Eu já expliquei... Meu irmão é que está internado.
- Então você quer um atestado médico para ir visitar seu irmão?
- E isso mesmo. Agora você entendeu!
- Entendi... e respirei bem fundo...
- Mas VOCÊ está doente?
- Não. Eu já expliquei... Meu irmão é que está internado.
- Então você quer um atestado médico para ir visitar seu irmão?
- E isso mesmo. Agora você entendeu!
- Entendi... e respirei bem fundo...
domingo, 10 de novembro de 2013
Meu nome é Reginaldo
No CAPS tinha um paciente surreal: o Reginaldo. Até os 18 anos, levava uma vida normal: estudava, trabalhava como balconista de farmácia e tinha uma namorada. O primeiro surto aconteceu dentro da zona, para onde foi levado pelo pai "para virar homem". Depois disso, não conseguiu mais trabalhar nem estudar. A namorada o deixou. Conheci-o quando tinha uns 40 anos. Não importava a temperatura ambiente, estava sempre de calça comprida, tênis e blusa de frio. Todos os dias, ao chegar, falava várias coisas rapidamente, sem qualquer nexo, e finalizava, estendendo a mão: - Meu nome é Reginaldo! E vivia aprontando... A mãe já havia tirado dezenas de "segundas-vias" de sua carteira de passe-livre em ônibus. Ele agia assim: entrava em uma lanchonete, escolhia o que queria e, na hora de pagar, como não tinha dinheiro, dava a carteirinha como garantia... Tinha também a mania de entrar em qualquer casa que lhe desse vontade. Entrava e, se visse algo interessante, simplesmente levava. Sempre que chegava em casa com algo diferente, o coração da mãe ia até a boca. E lá ia ela tentar advinhar quem tinha sido lesado dessa vez. Mas nem todos entendiam... Certa vez, entrou numa casa e resolveu tomar banho (de porta aberta, diga-se de passagem). O dono da casa chegou, achou que ele tinha um caso com sua mulher e chamou a polícia... E lá foi a mãe para a delegacia com o surrado "atestado de doido." Às vezes, Reginaldo sentia saudade da namorada... Na verdade, ela o deixou mas ele continuava apaixonado. Então ia para a porta de sua antiga casa e tocava a campainha. Quem quer que atendesse a porta, ouvia: - Meu nome é Reginaldo!
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Pérola 16
De um paciente esquizofrênico:
- Dra., vim aqui porque preciso de um remédio para mágoa.
- E o que e mágoa para você?
- Magoa é a indiferença das pessoas e da família...
Colaboração: Vinícius Pedroso
- Dra., vim aqui porque preciso de um remédio para mágoa.
- E o que e mágoa para você?
- Magoa é a indiferença das pessoas e da família...
Colaboração: Vinícius Pedroso
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
A visita
As visitas domiciliares são sempre inesquecíveis...
Essa paciente era grave e não aceitava tomar medicamentos. Era filha adotiva e a família decidiu alugar uma casa para que morasse com o companheiro e os deixasse em paz. Um irmão pagava o aluguel e lhe dava uma cesta básica todos os meses. A cesta era trocada com uma vizinha que lhe dava comida pronta. E assim ia vivendo... Todos os meses a equipe de enfermagem ia até a casa dela fazer medicação injetável e era muito mal recebida. Na véspera do meu plantão, uma psicóloga e um auxiliar de enfermagem haviam sido escorraçados de sua casa. No dia seguinte, eu e a colega enfermeira fomos intimadas a tentar... A casa até que era boa. Só não via, assim como a moradora, uma boa faxina há meses... O piso da varanda era de cerâmica revestida por uma grossa camada de poeira. Pois bem, atoladas na poeira, eu e a enfermeira batemos na porta. Após várias batidas, a paciente abre uma fresta na janela. Vestia a mesma roupa do mês anterior, estava descabelada e visivelmente irritada. Disse que não precisava de medicamento, era maior de idade e não iria nos receber. O companheiro, amarelo de tanto cachaça (e otras cositas más), estava escornado em uma cama no meio da sala e não se manifestou. Decidimos, diante da situação, pedir ajuda da polícia. Os policiais chegaram e a história se repetiu: pago meu aluguel em dia, sou maior de idade e não abrirei a porta... Um dos policiais, então, pula a janela, imobiliza a paciente e abre a porta. A casa era um caos... Não tinha como saber que cômodo era sala, quarto ou cozinha. As paredes eram escuras e havia restos de comida para todo o lado...o cheiro beirava o insuportável. A paciente, cada vez mais agitada... Após fazermos a medicação, ela é solta pela polícia e nos xinga de todos os nomes possíveis e imagináveis. Depois, se dirige aos policiais: - Vocês não podiam ter feito isso! Eu não roubo, não mexo com drogas. Quem usa droga é o meu marido! Quer ver onde ele esconde? Nesse momento, o companheiro da paciente se restabelece do porre em segundos, pula da cama e desaparece. E eu respiro bem fundo...
Essa paciente era grave e não aceitava tomar medicamentos. Era filha adotiva e a família decidiu alugar uma casa para que morasse com o companheiro e os deixasse em paz. Um irmão pagava o aluguel e lhe dava uma cesta básica todos os meses. A cesta era trocada com uma vizinha que lhe dava comida pronta. E assim ia vivendo... Todos os meses a equipe de enfermagem ia até a casa dela fazer medicação injetável e era muito mal recebida. Na véspera do meu plantão, uma psicóloga e um auxiliar de enfermagem haviam sido escorraçados de sua casa. No dia seguinte, eu e a colega enfermeira fomos intimadas a tentar... A casa até que era boa. Só não via, assim como a moradora, uma boa faxina há meses... O piso da varanda era de cerâmica revestida por uma grossa camada de poeira. Pois bem, atoladas na poeira, eu e a enfermeira batemos na porta. Após várias batidas, a paciente abre uma fresta na janela. Vestia a mesma roupa do mês anterior, estava descabelada e visivelmente irritada. Disse que não precisava de medicamento, era maior de idade e não iria nos receber. O companheiro, amarelo de tanto cachaça (e otras cositas más), estava escornado em uma cama no meio da sala e não se manifestou. Decidimos, diante da situação, pedir ajuda da polícia. Os policiais chegaram e a história se repetiu: pago meu aluguel em dia, sou maior de idade e não abrirei a porta... Um dos policiais, então, pula a janela, imobiliza a paciente e abre a porta. A casa era um caos... Não tinha como saber que cômodo era sala, quarto ou cozinha. As paredes eram escuras e havia restos de comida para todo o lado...o cheiro beirava o insuportável. A paciente, cada vez mais agitada... Após fazermos a medicação, ela é solta pela polícia e nos xinga de todos os nomes possíveis e imagináveis. Depois, se dirige aos policiais: - Vocês não podiam ter feito isso! Eu não roubo, não mexo com drogas. Quem usa droga é o meu marido! Quer ver onde ele esconde? Nesse momento, o companheiro da paciente se restabelece do porre em segundos, pula da cama e desaparece. E eu respiro bem fundo...
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Pérola 15
Havia um paciente no CAPS chamado Antônio Marcos*. Tinha retardo mental, era usuário de drogas e literalmente "da pá virada." Para se ter uma idéia, participou certa vez de um assalto ao próprio CAPS. A mãe sempre recorria ao serviço quando a situação ficava crítica. Seu sonho era conseguir uma "internação perpétua." E dessa vez não foi diferente. Não bastasse Antônio Marcos ter vendido vários utensílios domésticos, estava jurado de morte pelo traficante local. Foi então encaminhado ao hospital psiquiátrico numa bela tarde de sexta-feira... Chegando lá, não tinha vaga de internação. O paciente foi mantido na triagem, onde era exigida a presença de acompanhante. Na segunda-feira cedo, toca o telefone do CAPS. A equipe se entreolha:
- O que será que o Antônio Marcos aprontou dessa vez?
Mas, dessa vez, ele era inocente. O telefonema era do hospital psiquiátrico informando que seu pai, o acompanhante, havia pulado o muro e fugido!
*Nome fictício
- O que será que o Antônio Marcos aprontou dessa vez?
Mas, dessa vez, ele era inocente. O telefonema era do hospital psiquiátrico informando que seu pai, o acompanhante, havia pulado o muro e fugido!
*Nome fictício
domingo, 20 de outubro de 2013
Cenas
Cenas de um paciente que tem transtorno bipolar e TOC...
Cena 1: paciente é demitido da agência de veículos em que trabalhava. Motivo: entra em crise e começa a andar pela cidade nos modelos mais luxuosos da agência, sem a permissão do dono. Aceita tranquilamente a demissão. Afinal de contas, não nasceu para ser empregado. O pai, condoído de sua situação, lhe dá de presente uma máquina de assar frangos. O paciente, conhecido na cidade, por sua "mania de limpeza", logo conquista uma boa clientela. Até que vem outra crise... Nessa crise, convenceu-se que não ficava bem ele mesmo vender o frango assado. Contratou um funcionário. Durante o expediente (sábados e domingos, na porta de casa), vestia um terno, colocava uma garrafa de uísque em cima da mesa e ficava apenas gerenciando... até a falência do negócio.
Cena 2: esse mesmo paciente é encaminhado para internação. Estava agitadíssimo. Não tinha vaga de internação, mas, como o caso era grave, ficou em observação na triagem. O pai, idoso e desolado, o acompanhava. O paciente não se conforma com a sujeira local. Arruma uma vassoura com as faxineiras e começa a limpar o pátio. As pessoas se comovem com seu gesto e vem lhe perguntar: - Rapaz, você é muito caprichoso e trabalhador. O que está fazendo nesse hospital? E o paciente responde, sem titubear: - estou acompanhando meu pai que aguarda vaga para se internar...
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Pérola 14
- Doutora, eu já tomei aquele remédio ESCITALOPRAM. Foi péssimo: eu fiquei excitado e aloprado!
Colaboração: Juliana Parada
Pérola 13
Acontece de tudo nesses plantões...
Primeiro a paciente faz um escândalo na recepção porque trouxe a filha para consultar, porém não trouxe nenhum documento da mesma. Uma vez convencida de que a filha não poderia consultar, resolve ela mesma consultar. Durante o atendimento, se queixa da filha adolescente que foi expulsa do colégio, tem mania de se cortar e esconde comida no guarda-roupa. Pergunto sobre o "esconder comida" e a paciente diz:
- Quer ver?
Nesse momento, a criatura abre a bolsa e tira um prato com restos de comida mofada e alguns ossos de galinha que achara no armário da filha...
Pérola 12
Aconteceu com uma colega psiquiatra:
-Dra., eu só preciso de uma receita de Haldol. Mas eu não tomo o Haldol simples, para mim tem que ser "Haldol de Cano Alto"!
Pérola 11
- No hospital existem duas alas psiquiátricas: a masculina e a feminina. Elas ficam em andares diferentes. Ele obviamente irá para a ala masculina.
- Ainda bem! É que eu sou muito ciumenta...
- ...respiro bem fundo...
Pérola 10
- Dra., eu não vou mais tomar essa tal de paroxetina. Ela tirou a minha impotência. Deviam mudar o nome desse remédio - devia chamar era Parou o que você tinha...
Spiderman
Reencontrei essa semana um paciente alcoólatra que não via há tempos. Ele me conta que já foi internado dezenove vezes e que, devido a uma fratura no tornozelo, ficou um ano na cadeira de rodas.
- E como foi que você conseguiu quebrar o tornozelo?
- Eu caí do terceiro andar do meu prédio.
- Foi tentativa de suicídio?
- Foi assim: eu saí da internação, passei no supermercado, comprei bastante bebida e fui para casa. Lá pelas duas da manhã, com "várias" na cabeça, eu vi um filme em que o cara andava de um prédio para outro segurando uma corda. Aí eu pensei: se ele pode, eu também posso! Vi uma corda na janela e pulei. A corda arrebentou, eu tentei me segurar mas não teve jeito. Ainda bem que o celular estava no bolso, eu mesmo chamei o SAMU...
Pérola 9
Uma paciente esquizofrênica, que nunca teve boa resposta ao tratamento, agora, em uso da medicação que ela prescreveu, melhorou muito. Dois dias depois da última consulta, a paciente chega de "urgência", entra consultório adentro e reclama: "Dra., você tirou a minha neurose! Devolve a minha neurose!" O jeito foi suspender a medicação que tanto sucesso estava fazendo...
Colaboração: Valéria Guimarães
Colaboração: Valéria Guimarães
Pérola 8
Nos meus tempos de residente, tinha um paciente que só atendia se lhe chamássemos pelo nome de trás para frente. Ele também acreditava que uma nave espacial pousaria no Mineirão e os marcianos viriam buscá-lo. Eu adorava cumprimentá-lo todas as manhãs:
- Bom dia, ONALUF!
- Bom dia!
- E a família, como vai?
E ele respondia, olhando fundo nos meus olhos:
- A da Terra ou a da Via Láctea?
Pérola 7
E aconteceu com aquela paciente que, cansada das sucessivas quebras do contrato de exclusividade por parte do marido, resolve separar e viajar para a Europa. Lá, com saudade de outros atributos do distinto, em cada igreja que entrava, repetia o mantra: "não me deixeis cair em tentação"...
Pérola 6
- Dra., depois que eu fui internada, o meu pai me trata como se eu tivesse 12 anos de idade. Não pode isso, não vai fazer aquilo... Eu tô de saco cheio. Quem precisa de limite é município...
Pérola 5
Lembrei-me agora de um plantão de domingo à tarde, na enfermaria, nos tempos em que era residente... Estava batendo papo com os pacientes quando um deles, dependente químico, vira para mim e fala:
- Dra., você é muito mais doida do que eu. Eu estou aqui trancado. Você tem a chave e não vai embora...
- Dra., você é muito mais doida do que eu. Eu estou aqui trancado. Você tem a chave e não vai embora...
Pérola 4
- Dra, eu vou ser bem sincero: preciso de um atestado de 2 dias porque não estou a fim de trabalhar no feriado. Pode colocar lombalgia porque diarréia esta muito batido.
-Eu também serei muito sincera: sem chance!
Pérola 3
- Dra., até que estou boa da depressão. O problema e que comecei um regime mas não consigo deixar de comer chocolate.
- Entao tente comer menos chocolate. Quando der vontade, coma um pedacinho.
- E você consegue ver o Tom Cruise e dar só um selinho?
Pérola 1
- Dra., eu nasci no exterior. Vim para o Brasil de navio. Eu era muito pequena, vim dentro de uma caixa de fósforos. Mas, lá dentro, eu já era doida...
domingo, 6 de outubro de 2013
A fuga
Era uma vez um paciente chamado Reinaldo*…
Num belo dia, aproveitando a distração do
porteiro no horário do lazer, desceu as escadas do décimo-primeiro andar da
enfermaria de psiquiatria rumo a rua. Os funcionários, tão logo descobriram a
fuga, avisaram aos porteiros do térreo do hospital. Assim, alguns seguranças do
hospital subiram as escadas na tentativa de encontrá-lo. Reinaldo já estava no
sétimo andar, onde por sinal funcionava a maternidade, quando percebeu que
seria encontrado e devolvido a enfermaria. Vestia roupas do hospital, o que
facilitava sua identificação. Foi quando teve a grande ideia. Entrou num
daqueles quartinhos em que se guarda material de limpeza e ficou completamente nu. Saiu assim,
despreocupadamente, pelo corredor. E a gritaria da mulherada (gestantes, puérperas
e enfermeiras) foi geral:
- Socorro! Tem um homem pelado aqui!
Os seguranças chegaram rapidamente e o pegaram. O paciente, com a cara mais lavada desse mundo, retruca:
- O que é isso, cara? Acabei de nascer…
Colaboração: Bárbara Perdigão
*Nome fictício
- Socorro! Tem um homem pelado aqui!
Os seguranças chegaram rapidamente e o pegaram. O paciente, com a cara mais lavada desse mundo, retruca:
- O que é isso, cara? Acabei de nascer…
Colaboração: Bárbara Perdigão
*Nome fictício
quinta-feira, 27 de junho de 2013
O sobrevivente
Quando a história é muito mais interessante que a doença...
Virgílio nasceu antes dos nove meses. Tinha pressa. Filho mais velho, o pai foi quem escolheu seu nome - queria um nome "diferente". Passou a infância no interior. Aos 12 anos, começou a fumar maconha e a trabalhar como DJ no forró de sua mãe. Um ano depois, conheceu a cocaína. Aos 14 anos, engravidou uma mulher de 23. "Virei adulto." Faltando uma semana para o nascimento do filho, a mãe de Virgílio se suicida (enforcamento). Ele ficou casado durante 10 anos e teve mais uma filha. Separou quando foi preso por tráfico de drogas. Ele ficou preso durante um ano e oito meses. Saiu da cadeia "desestruturado de tudo"e voltou para o tráfico. Foi preso várias outras vezes, torturado pela polícia, e tomou uma surra dos parentes da ex-mulher. "Juntaram oito para me pegar. Eu jurei vingança. Peguei um por um."Pouco depois, foi ameaçado de morte por um traficante e se escondeu no mato. O filho levava comida e bilhetes da ex-mulher. Um belo dia, descobriram seu esconderijo. Tomou um tiro no pé direito, um golpe de picareta na cabeça e apanhou muito. Quando acharam seu corpo, começaram os rumores de que estava morto. O povo começou a ajuntar. Como o corpo estava muito ensanguentado, alguém o cobriu com um lençol branco até que chegasse o rabecão. O rabecão chegou e viram que ele estava vivo. Foi levado para um pronto-socorro da capital. Perdeu o baço, o pulmão foi perfurado e o estômago lacerado. Além disso, fraturou várias costelas e ambos os braços. Mas ele sobreviveu... Quando teve alta, decidiu permanecer na cidade. Tinha medo de voltar e ser assassinado. Sentia falta dos filhos. "Para não ser abandonado, abandonei todo mundo." Morou na rua, voltou para o tráfico e foi preso novamente. Foi sentenciado para prestar serviço em um albergue municipal. A assistente social gostava dele. Virgílio tinha dificuldade para dormir e enchia a cara de álcool, cocaína e "remédio controlado." Um dia, bem cedo, viu uma senhora cheia de filhos dentro de uma padaria. Os meninos pediam alimentos e ela não podia comprar. Ele tinha gastado tudo o que tinha com crack. Ficou com dó. Chegou no albergue e tentou se enforcar. "Tudo para fugir do mundo que me sobrou." Mas ele sobreviveu... Foi encontrado inconsciente e novamente levado para o pronto-socorro. Algumas semanas após a alta, voltou para o albergue e foi encaminhado para um serviço de saúde mental. "Já passei por uns quinze psiquiatras e não gostei de nenhum. Queriam me internar, mas lá só tinha gente doida. Dei caô em um deles e fugi."Nessa época, o serviço voluntário no albergue terminou e Virgílio voltou para as ruas. "Situação de rua eu não aguento. Meu fascínio sempre foi o bar, aqueles com gente bem trajada. No interior, eu ia lá vender droga para os bacanas." O serviço de saúde mental conseguiu localizar uma tia de Virgílio e esta alugou um quarto para ele. Virgílio não conseguia ficar sozinho em lugar fechado e tomou uma overdose. Sobreviveu e decidiu ir para o Rio de Janeiro. "Morei 22 dias na Barra da Tijuca. Fiz amizade com a dona de um quiosque e alugava cadeiras para as celebridades. Eu dormia lá." Com o tempo, começou a fazer programas com estrangeiros. Conheceu a cocaína boa, a tal "escama de peixe." Conheceu também a heroína. Passou a colocar calmante na bebida dos gringos e roubar seus pertences. Um dia, roubou a heroína do cliente, mas se esqueceu da água destilada. Sem pensar duas vezes, puxou o próprio sangue na seringa e com ele diluiu e esquentou a heroína. Acordou alguns dias depois no pronto-socorro. Num desses episódios de "Boa-noite, Cinderela", a vítima começou a passar muito mal e Virgílio ficou com medo de que ele morresse. Esperou o dia amanhecer e desceu escorando o gringo. Falou na recepção do hotel que ele tinha bebido demais. "Fiz igual ator da Globo e eles chamaram um táxi. Dois quarteirões depois, desci do táxi e vazei."Voltou para BH. Foi morar na cracolândia. Quando tinha dinheiro, ia dormir num hotel barato das proximidades. Ás vezes, fazia bicos no Ceasa. "Ficava ligado umas 80 horas." Um tempo depois, começou a frequentar um projeto evangélico na cracolândia. "No começo, eu ia lá só para comer e tomar banho quente. Um dia eu conversei com o pastor e decidi ficar."Foi convidado para ir para uma fazenda de recuperação mas não tinha documentos. Foi tirar a segunda via da identidade e descobriu um mandado de prisão contra ele. Ficou preso por quatro meses. Mas sobreviveu... Virgílio só tem 30 anos!
Virgílio nasceu antes dos nove meses. Tinha pressa. Filho mais velho, o pai foi quem escolheu seu nome - queria um nome "diferente". Passou a infância no interior. Aos 12 anos, começou a fumar maconha e a trabalhar como DJ no forró de sua mãe. Um ano depois, conheceu a cocaína. Aos 14 anos, engravidou uma mulher de 23. "Virei adulto." Faltando uma semana para o nascimento do filho, a mãe de Virgílio se suicida (enforcamento). Ele ficou casado durante 10 anos e teve mais uma filha. Separou quando foi preso por tráfico de drogas. Ele ficou preso durante um ano e oito meses. Saiu da cadeia "desestruturado de tudo"e voltou para o tráfico. Foi preso várias outras vezes, torturado pela polícia, e tomou uma surra dos parentes da ex-mulher. "Juntaram oito para me pegar. Eu jurei vingança. Peguei um por um."Pouco depois, foi ameaçado de morte por um traficante e se escondeu no mato. O filho levava comida e bilhetes da ex-mulher. Um belo dia, descobriram seu esconderijo. Tomou um tiro no pé direito, um golpe de picareta na cabeça e apanhou muito. Quando acharam seu corpo, começaram os rumores de que estava morto. O povo começou a ajuntar. Como o corpo estava muito ensanguentado, alguém o cobriu com um lençol branco até que chegasse o rabecão. O rabecão chegou e viram que ele estava vivo. Foi levado para um pronto-socorro da capital. Perdeu o baço, o pulmão foi perfurado e o estômago lacerado. Além disso, fraturou várias costelas e ambos os braços. Mas ele sobreviveu... Quando teve alta, decidiu permanecer na cidade. Tinha medo de voltar e ser assassinado. Sentia falta dos filhos. "Para não ser abandonado, abandonei todo mundo." Morou na rua, voltou para o tráfico e foi preso novamente. Foi sentenciado para prestar serviço em um albergue municipal. A assistente social gostava dele. Virgílio tinha dificuldade para dormir e enchia a cara de álcool, cocaína e "remédio controlado." Um dia, bem cedo, viu uma senhora cheia de filhos dentro de uma padaria. Os meninos pediam alimentos e ela não podia comprar. Ele tinha gastado tudo o que tinha com crack. Ficou com dó. Chegou no albergue e tentou se enforcar. "Tudo para fugir do mundo que me sobrou." Mas ele sobreviveu... Foi encontrado inconsciente e novamente levado para o pronto-socorro. Algumas semanas após a alta, voltou para o albergue e foi encaminhado para um serviço de saúde mental. "Já passei por uns quinze psiquiatras e não gostei de nenhum. Queriam me internar, mas lá só tinha gente doida. Dei caô em um deles e fugi."Nessa época, o serviço voluntário no albergue terminou e Virgílio voltou para as ruas. "Situação de rua eu não aguento. Meu fascínio sempre foi o bar, aqueles com gente bem trajada. No interior, eu ia lá vender droga para os bacanas." O serviço de saúde mental conseguiu localizar uma tia de Virgílio e esta alugou um quarto para ele. Virgílio não conseguia ficar sozinho em lugar fechado e tomou uma overdose. Sobreviveu e decidiu ir para o Rio de Janeiro. "Morei 22 dias na Barra da Tijuca. Fiz amizade com a dona de um quiosque e alugava cadeiras para as celebridades. Eu dormia lá." Com o tempo, começou a fazer programas com estrangeiros. Conheceu a cocaína boa, a tal "escama de peixe." Conheceu também a heroína. Passou a colocar calmante na bebida dos gringos e roubar seus pertences. Um dia, roubou a heroína do cliente, mas se esqueceu da água destilada. Sem pensar duas vezes, puxou o próprio sangue na seringa e com ele diluiu e esquentou a heroína. Acordou alguns dias depois no pronto-socorro. Num desses episódios de "Boa-noite, Cinderela", a vítima começou a passar muito mal e Virgílio ficou com medo de que ele morresse. Esperou o dia amanhecer e desceu escorando o gringo. Falou na recepção do hotel que ele tinha bebido demais. "Fiz igual ator da Globo e eles chamaram um táxi. Dois quarteirões depois, desci do táxi e vazei."Voltou para BH. Foi morar na cracolândia. Quando tinha dinheiro, ia dormir num hotel barato das proximidades. Ás vezes, fazia bicos no Ceasa. "Ficava ligado umas 80 horas." Um tempo depois, começou a frequentar um projeto evangélico na cracolândia. "No começo, eu ia lá só para comer e tomar banho quente. Um dia eu conversei com o pastor e decidi ficar."Foi convidado para ir para uma fazenda de recuperação mas não tinha documentos. Foi tirar a segunda via da identidade e descobriu um mandado de prisão contra ele. Ficou preso por quatro meses. Mas sobreviveu... Virgílio só tem 30 anos!
sexta-feira, 24 de maio de 2013
O homem das cavernas
Quando se casaram, o pai tinha 53 anos e a mãe 25. Ele é filho único. E não gostava do pai. Acredita, inabalavelmente, que todo filho deve ser estuprado pelo pai até os 3 anos de idade para que cresça e prospere. Seu pai não fez isso e, por esse motivo, ele cresceu "zebrado". Na sua crença, gente "zebrada"não envelhece nem morre. Norberto estudou até o ensino fundamental e nunca namorou. Já trabalhou como trocador de ônibus e servente de pedreiro. É católico, no entanto acredita em macumba e feitiçarias.
Aos 22 anos, seu pai faleceu de câncer. No ano seguinte, Norberto adoeceu e nunca mais trabalhou. Nessa época, devido a brigas com vizinhos, Norberto e a mãe se mudaram. Os amigos começaram a dizer que ele estava doido. Ele rebatia, dizia que uma mulher havia amarrado a sua vida, enterrado feitiço para ele ao lado do latão. Ele cavacou e não encontrou nada. A tal mulher chorou quando o viu cavacar, e ele chorou também... Começou a brigar com os novos vizinhos e foi baleado. Mostra a cicatriz no abdome e fala que o autor foi um rapaz que mexia com droga. A família se mudou novamente após o episódio.
Pouco tempo depois, começou a dizer que metade do seu corpo estava destruído e que os vizinhos queriam envenená-lo. Acusava os vizinhos de colocarem veneno na caixa d'água. Dizia também que queria morrer, fazer parar o coração. Um homem lhe disse que, para melhorar, tinha que viver um grande amor. Mas Norberto tinha vergonha de namorar. E tentou se enforcar...
No ano seguinte, o pessoal da Saúde Mental visitou sua casa. A mãe disse que ele estava bem e que tudo era resultado de uma macumba que haviam colocado em seu filho. Dois anos depois, um vizinho reclama que Norberto o incomoda com gritos e palavrões. A mãe dele procura o serviço de Saúde Mental e conta que dorme trancada no banheiro há seis meses. Fala que o filho está com um peso na cabeça, quis "fazer besteira" com ela, mas ela não permitiu. Norberto detesta todo e qualquer medicamento. Fala que eles lhe causam sensação de morte. A mãe apóia...
Cinco anos depois, nova denúncia de vizinhos. Os dois viviam em condições subumanas. Norberto, com os cabelos longos e desgrenhados, parecia um homem das cavernas. Viviam presos dentro de casa, juntamente com os cães e gatos. Todo mundo tomava somente água mineral. O paciente e a mãe dormiam juntos em cama de casal, o dinheiro era guardado embaixo do colchão. Os dois estavam agressivos e os discurso era incoerente e confuso. Os dois foram internados... e receberam alta depois de um mês. A mãe piorou depois da internação e foi morar com uma irmã em outra cidade. Norberto ficou sentido com a internação. Fala do medo de envelhecer e acredita que está com um tumor na cabeça. Prefere morrer. Os vizinhos continuam com as denúncias, falam que Norberto é agressivo e xinga palavrões. Em nova visita domiciliar, ele acusa os vizinhos de envenenarem seus gatos e acredita estar condenado a morte. A mãe, que voltou a morar com ele, confirma tudo. O proprietário da casa em que moram quer que eles desocupem o imóvel. Ficou sabendo que os inquilinos gritam palavrões dia e noite, matam animais e os amarram pelos pés. Norberto xinga todos os que passam na rua e a mãe corre atrás das crianças com pedaços de pau. À noite, toda a vizinhança escuta a relação sexual entre os dois. Os agentes comunitários de saúde se recusam a visitar a casa do paciente. O proprietário da casa passou a não receber o dinheiro do aluguel. No ano seguinte, mais denúncias de vizinhos. O paciente quebrou o meio-fio da rua e fica jogando sal nas portas das casa vizinhas. A mãe de Norberto fala que eles são roubados pelos vizinhos e que uma vizinha tentou envenená-la com leite e chocolate. Ela fala que tudo começou porque ela se casou...
O interessante é que a casa onde vivem é realmente invadida pelo olhar dos vizinhos e por uma passagem que liga duas ruas do bairro. Um tio de Norberto oferece um lote, em outro bairro, para que eles construam. Eles não aceitam e acusam esse parente de ser o feiticeiro responsável pela morte do pai do paciente. O juiz ameça despejá-los. Onde vão parar?!
Aos 22 anos, seu pai faleceu de câncer. No ano seguinte, Norberto adoeceu e nunca mais trabalhou. Nessa época, devido a brigas com vizinhos, Norberto e a mãe se mudaram. Os amigos começaram a dizer que ele estava doido. Ele rebatia, dizia que uma mulher havia amarrado a sua vida, enterrado feitiço para ele ao lado do latão. Ele cavacou e não encontrou nada. A tal mulher chorou quando o viu cavacar, e ele chorou também... Começou a brigar com os novos vizinhos e foi baleado. Mostra a cicatriz no abdome e fala que o autor foi um rapaz que mexia com droga. A família se mudou novamente após o episódio.
Pouco tempo depois, começou a dizer que metade do seu corpo estava destruído e que os vizinhos queriam envenená-lo. Acusava os vizinhos de colocarem veneno na caixa d'água. Dizia também que queria morrer, fazer parar o coração. Um homem lhe disse que, para melhorar, tinha que viver um grande amor. Mas Norberto tinha vergonha de namorar. E tentou se enforcar...
No ano seguinte, o pessoal da Saúde Mental visitou sua casa. A mãe disse que ele estava bem e que tudo era resultado de uma macumba que haviam colocado em seu filho. Dois anos depois, um vizinho reclama que Norberto o incomoda com gritos e palavrões. A mãe dele procura o serviço de Saúde Mental e conta que dorme trancada no banheiro há seis meses. Fala que o filho está com um peso na cabeça, quis "fazer besteira" com ela, mas ela não permitiu. Norberto detesta todo e qualquer medicamento. Fala que eles lhe causam sensação de morte. A mãe apóia...
Cinco anos depois, nova denúncia de vizinhos. Os dois viviam em condições subumanas. Norberto, com os cabelos longos e desgrenhados, parecia um homem das cavernas. Viviam presos dentro de casa, juntamente com os cães e gatos. Todo mundo tomava somente água mineral. O paciente e a mãe dormiam juntos em cama de casal, o dinheiro era guardado embaixo do colchão. Os dois estavam agressivos e os discurso era incoerente e confuso. Os dois foram internados... e receberam alta depois de um mês. A mãe piorou depois da internação e foi morar com uma irmã em outra cidade. Norberto ficou sentido com a internação. Fala do medo de envelhecer e acredita que está com um tumor na cabeça. Prefere morrer. Os vizinhos continuam com as denúncias, falam que Norberto é agressivo e xinga palavrões. Em nova visita domiciliar, ele acusa os vizinhos de envenenarem seus gatos e acredita estar condenado a morte. A mãe, que voltou a morar com ele, confirma tudo. O proprietário da casa em que moram quer que eles desocupem o imóvel. Ficou sabendo que os inquilinos gritam palavrões dia e noite, matam animais e os amarram pelos pés. Norberto xinga todos os que passam na rua e a mãe corre atrás das crianças com pedaços de pau. À noite, toda a vizinhança escuta a relação sexual entre os dois. Os agentes comunitários de saúde se recusam a visitar a casa do paciente. O proprietário da casa passou a não receber o dinheiro do aluguel. No ano seguinte, mais denúncias de vizinhos. O paciente quebrou o meio-fio da rua e fica jogando sal nas portas das casa vizinhas. A mãe de Norberto fala que eles são roubados pelos vizinhos e que uma vizinha tentou envenená-la com leite e chocolate. Ela fala que tudo começou porque ela se casou...
O interessante é que a casa onde vivem é realmente invadida pelo olhar dos vizinhos e por uma passagem que liga duas ruas do bairro. Um tio de Norberto oferece um lote, em outro bairro, para que eles construam. Eles não aceitam e acusam esse parente de ser o feiticeiro responsável pela morte do pai do paciente. O juiz ameça despejá-los. Onde vão parar?!
domingo, 12 de maio de 2013
Bichinhos
Essa paciente chegou até ao ambulatório encaminhada pelo seu ginecologista. Este foi curto e grosso no encaminhamento: paciente relata "bichos pelo corpo", exame ginecológico normal. Maria era uma moça simples, solteira, que morava com o pai e o irmão. Estava com 49 anos. Nunca trabalhou fora, teve poucos namorados e nunca teve relação sexual. A mãe morrera de câncer há uns 14 anos. Foi Maria quem cuidara dela e a saudade era imensa. A vida se resumia às tarefas de casa. Aos domingos, ia à missa. Sempre retraída, não era dada a amizades. Nos tempos de escola, não conseguia "aprender direito."Muito constrangida na consulta, conta que a coisa complicou de uns três anos para cá. Nessa época, Maria viu um bichinho entrando em sua vagina. Acredita, desde então, que está sendo "comida por dentro". Os bichinhos são invisíveis, "do tamanho de uma bactéria". Sobem até a pele quando querem se multiplicar. Ela sente os bichinhos se mexendo, tanto embaixo da pele quanto na vagina. A primeira vez que foi ao ginecologista, reclamou dos bichinhos. Esse disse que era infecção e passou uma pomada. Sentiu os bichinhos saindo, mas depois eles voltaram. Acredita que um bicho grande, o pai das bactérias, está alojado em seu coração. E os bichinhos comem seus órgãos incessantemente... Não tem pomada que resolva. Pergunto o motivo de seu encaminhamento. Ela demora a responder, percebo certa desconfiança. Fala que reclamou novamente dos bichos para o ginecologista e este se limitou a sorrir. Acredita que terá que fazer uma limpeza na vagina e o ginecologista quer que o psiquiatra a prepare psicologicamente para o procedimento. O problema é que, por ser virgem, a limpeza só poderá ser feita em bloco cirúrgico. Tem medo de perder a virgindade e também que alguns bichinhos sejam esquecidos pelo cirurgião. Fala que tem bichinhos até no sangue e que eles viram bichos. Não acredita que existam remédios para esses bichos. Termina a consulta prometendo que colocará alguns bichinhos dentro de uma caixa de fósforo e trará para eu conhecer...
terça-feira, 16 de abril de 2013
O Filme
Atendi há algumas semanas um
rapaz acompanhado pelo irmão. O paciente, Natanael, contou que há três meses
começou a ter visões (via Cristo voltando, via o “anticristo”), ver vultos e
ouvir vozes. As vozes o chamavam de “burro”. O paciente, muito assustado,
começou a bater as mãos no chão numa tentativa de se comunicar com a família. A
família achou que ele estava tendo uma convulsão e chamou o SAMU. O SAMU não
foi e o irmão levou ao PS. Lá, falaram que o paciente estava com “piti” e o
liberaram. Chamei o irmão do paciente, Emanuel, para conversar. Ele conta que o
irmão, quatro anos mais novo, sempre foi estranho. Quando criança, os avós
chamaram a atenção dos pais porque Natanael gostava de brincar com bonecas. Os
pais “taparam o sol com a peneira a vida inteira.” Sempre que os pais brigavam,
Emanuel ficava neutro. Natanael, por sua vez, era o defensor da mãe. Aos 13
anos, descobriu que o pai tinha outra mulher e contou para a mãe. Os pais se
separaram. Na adolescência, Emanuel contava para a mãe o que ouvia sobre o
irmão na rua e a mãe o chamava de mentiroso. Um belo dia, cansado disso, chamou
Natanael e disse para ele falar, olhando nos olhos da mãe, se gostava de
mulher. A mãe, ao saber que o filho era homossexual, se culpou e adoeceu. Há
cerca de 10 anos, a mãe perdeu a visão de um olho e Natanael parou de trabalhar
para cuidar dela. Emanuel achava um absurdo o irmão viver da aposentadoria da
mãe. De uns quatro anos para cá, Emanuel fala que o irmão se tornou mais
fechado, “antissocial” e passou a se irritar com pequenas coisas. No meio do
ano, Emanuel decidiu vender o lote da mãe em BH, muito acidentado, e começou a
procurar outros imóveis. Natanael se recusava a dar qualquer opinião. No final
do ano, Emanuel comprou uma chácara num município vizinho. Ao falar sobre a
mudança, Natanael disse que se recusava a mudar. O irmão, muito bravo, disse
que era para ele morar na chacára durante 30 dias e depois podia sumir no
mundo. Natanael gostou da chácara mas, depois de dois meses, voltou a falar em
ir embora. No começo desse ano, o irmão recebeu um telefonema da esposa em seu
trabalho. A esposa se trancara no quarto com os filhos do casal após Natanael
ameaçá-la com uma espátula. O irmão pediu ajuda para os seguranças do
condomínio. Estes foram recebidos a tijoladas por Natanael. Quando Emanuel
chegou, Natanael estava enrolado em uma bandeira de BH e tinha a bíblia nas
mãos. O irmão chamou o pastor e se justifica – “pobre não tem esse negócio de
médico não.” Nesse momento, me mostra a filmagem no celular – o paciente se
debatia, vociferava e o pastor tentava exorcizá-lo. Por volta das 23h, Emanuel
conseguiu leva-lo ao pronto-atendimento. Lá,
deram um calmante e liberaram o paciente. Na madrugada, Emanuel acorda
com Natanael andando pelo quintal juntamente com a mãe. Falava que estava vendo
o diabo e que este queria mata-lo. Ao amanhecer, o irmão o leva até o centro de
saúde. Mais calmo, Natanael contou para o médico e para o irmão que era
portador do vírus HIV há mais de 10 anos e tomava “coquetel” regularmente.
Falou também que há dois anos desistira de ser homossexual. É cada uma...
terça-feira, 26 de março de 2013
O chip no dente
Neide* foi levada ao psiquiatra pela irmã, sete meses após ter sido promovida. Trabalhava em prefeitura no interior há 18 anos e era amiga da esposa de um político. Quando este ganhou as eleições, deu-lhe um cargo de gerência de uma repartição. Seu salário triplicou. O problema é que a paciente se sentia rejeitada pelos novos colegas de trabalho. Dizia que eles mandavam indiretas e só conversavam o essencial com ela. Há um mês, Neide procurou o chefe para reclamar dos colegas e este lhe deu ferias. A partir de então, teve certeza de que o chefe, juntamente com os colegas, estava planejando algo contra ela. Conversei separadamente com a irmã de Neide. Esta me conta que a irmã teve que extrair os quatro dentes superiores aos doze anos. A familia era muito pobre e o tratamento dos dentes ficaria caro demais. Neide usou uma mesma "ponte" dentária a vida toda. Na adolescência, se isolou do mundo. Não tinha amigos e nem namorava. Há um mês, decidiu trocar a "ponte". Desde então, passou a acreditar que o dentista, a mando do seu chefe, implantara um chip em seu dente. Através do chip, o chefe a comandava à distancia. A paciente também falou para a irmã que o chefe era apaixonado por ela, porém não era correspondido. O chefe conseguia hipnotizá-la e entrava em sua casa durante a madrugada. Conversei com Neide e esta confirmou tudo o que a irmã dissera. Propus passar remédios, porém Neide recusou. Ela retornou ao consultório depois de um mês. Voltou somente para dizer que havia encontrado solução para o seu problema. Ia pedir exoneração do cargo de chefia e voltar para seu antigo posto. Mesmo com o salário menor, com certeza seria muito mais feliz.
sábado, 16 de março de 2013
Incesto
Muitas vezes ela chegava ensangüentada. Socava a cabeça na parede, machucava para valer. Precisava se sentir viva. Queria que a dor do corpo anestesiasse a dor da alma. Só que esta era muito maior... Começou a sofrer ainda criança. Ela, a mãe e os irmãos. Todos vítimas de um pai tirano. Moravam na roça, exatamente no meio do nada. O pai bebia, obrigava a mãe a beber e a pancadaria corria a solta. Por qualquer coisa, por coisa nenhuma. Ela era a mais velha e foi a primeira a ser abusada. Na cama do casal, a mãe assistia a tudo. A mãe dizia que seria morta caso ela se recusasse. E ela não via alternativa. Com o passar do tempo, as irmãs também foram violentadas. Alguém, possivelmente da família, fez uma denúncia. Ela e as irmãs foram para um lar abrigado e devolvidas para casa após poucos dias. A mãe negava tudo. E o tempo foi passando... Cada uma reagindo à sua maneira. Uma delas fugiu. Foi para a estrada, pegou carona em um caminhão e desapareceu com a roupa do corpo. Ninguém sabe dela, nem mesmo se está viva. A mãe conta a história secamente. Outra apareceu com uma doença de pele terrível, que o povo chama de "fogo selvagem". Esta tem um retardo mental e continua vivendo com a mãe. A mãe a trata como se fosse um fardo. Não se vê um pingo de afeto por parte dela. Já a filha caçula nunca se conformou. Eles eram Testemunhas de Jeová. A única ligação com o mundo era feita por meio da religião. Um dia ela tomou coragem e contou tudo para uma amiga da igreja. A amiga, escandalizada, orientou que ela denunciasse os fatos a polícia. Ela conversou com a irmã mais velha, esta tinha muito medo. Mas a caçula foi lá e denunciou. O pai foi preso. Diziam que apanhava muito na cadeia. A mãe tomou ódio dela e das irmãs. Chorava muito e dizia que só tinha dois filhos homens. Visitava o marido todos os dias, levava a comida do jeito que ele gostava. O pai pegou pneumonia e morreu na cadeia. A mãe definhou. Dizia que o amava e que não conseguiria viver sem ele. Gostava de ficar olhando para a lua, se lembrava dele. Um dia lhe perguntei se ele havia sido um bom marido. Ela disse que não, que era um traste e que sempre a espancou. Mas ela amava, e como amava... Dizia que nunca perdoaria as filhas pela morte do pai. A filha mais velha e a mais nova foram expulsas de casa. Foram acolhidas pelos irmãos da igreja. Achavam que nunca se casariam pois a cidade toda sabia da história. Ambas, porém, se casaram. A mais velha tinha um marido compreensivo, mas isso não era suficiente para ser feliz. Se achava a pior de todas as mulheres, era brigada consigo mesma. Em algumas épocas, engordava excessivamente. Em outras, ficava pele e osso. Odiava quando a mãe aparecia em sua casa. Era somente para destilar veneno. A mãe conseguia fazer com que revivesse todo aquele inferno. E ela se machucava, tentava acabar com a própria vida. A irmã mais nova não conversava com a mãe nem a recebia em sua casa. Cada qual reagindo à sua maneira...
domingo, 10 de março de 2013
Deus toma conta!
Hoje me lembrei dela. Não sei o porque. Helena era sempre calada, não gostava de confusão. Ia no hospital-dia diariamente, sempre arrumadinha e de lenço na cabeça. Quando chegávamos perto, contudo, o cheirinho denunciava que o último banho acontecera há semanas. Ela sempre estava carregando sacolas. Devia ter de tudo naquelas sacolas, especialmente coisas que ela achava interessante nas oficinas de arte e decidia levar para casa. Levava coisas dos outros também, sempre na maior discrição. O pessoal da enfermagem é que notou que a sua barriga estava crescendo. Perguntaram para ela se estava grávida e ela negou. Contou que tinha uma filha e que esta foi adotada por uma vizinha poucos dias depois de seu nascimento. Helena dizia que haviam roubado a criança dela. De vez em quando, ia para a porta da vizinha e fazia um escândalo. Depois, largava para lá. Decidimos levá-la a um ginecologista que confirmou a gravidez. Devia estar no quarto ou quinto mês de gestação. O médico perguntou sobre a paternidade da criança e ela disse que era o cebolinha (da Turma da Mônica). Iniciamos os exames de pré-natal e o teste de HIV foi positivo. E ela, nem aí... Começou a tomar o coquetel para o HIV. A dose da manhã era dada no hospital-dia, a da noite ela levava para casa. Conseguimos marcar o parto cesáreo e a ligação das trompas. Ela, porém, não esperou. No sétimo mês, entrou em trabalho de parto e teve o bebê sozinha no quartinho em que morava. Poucas horas após o parto, colocou o menino dentro de uma caixa de sapatos e foi para rua telefonar. Os vizinhos ficaram estarrecidos e chamaram a polícia. E lá se foi Helena e o bebê para o hospital. Chegando lá, tudo ficou claro para ela: eles também iam roubar o seu menino. Para que isso não acontecesse, trancou-se no banheiro com a criança. Depois de horas de negociação, aceitou abrir a porta para pegar uma mamadeira. Sentiu fome e tomou a mamadeira. Afinal de contas, o menino não devia estar com fome. Mais algumas horas e ela foi para um quarto. No dia seguinte, a família nos dá a notícia e resolvemos ir até sua casa. O quartinho era uma imundície só. E, debaixo da cama, encontramos toda a medicação para o HIV. Telefonamos apavorados para o hospital. Mãe e filho passavam bem. O teste de HIV da criança havia dado negativo e uma irmã de Helena decidiu adotá-lo. Acredito que esse filho tenha alguma missão muito especial aqui na terra. Forte e saudável, apesar de todas as adversidades. Como diz a minha mãe, Deus toma conta...
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O cruzeirense
Esse paciente sempre chegava gentilmente escoltado pela policia. Muito exaltado. A história era a mesma: estava jogando pedras nas casas dos vizinhos. O paciente se justificava: "Os vizinhos tem inveja de mim. Isso porque eu sou aposentado e tenho carteirinha para andar de ônibus de graça." Assim, sempre que o Cruzeiro, seu time preferido, perdia uma partida, eles começavam a soltar foguetes. E os foguetes, com toda certeza, eram para insultá-lo. Ele agüentava calado até que a raiva falava mais alto... Após uns dias na enfermaria, o remedinho fazia efeito (até porque eu duvido que tomasse em casa) e ele me abordava: "Acho que já dá para voltar para casa. Os vizinhos devem estar mais calmos..."
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Raimunda e Diógenes
Conheci-a já bem degradada. Os cabelos brancos,
desalinhados, engordurados, presos de qualquer jeito no alto da cabeça. As
vestes sujas, velhas, cheias de pêlos e com cheiro de cachorro. Os poucos
dentes que lhe restavam estavam estragados. O olhar era triste. Vagava pelas
ruas empurrando um carrinho de madeira cheio de latinhas, e sua comitiva era
composta por vários cães.
Era famosa na cidade em que vivia. Uma espécie de
fama "às avessas". Já fôra notícia de jornal. Atrapalhava o trânsito,
os cães avançavam nos motoqueiros e transeuntes. Pareciam um exército a
defendê-la de quem sequer ousasse se aproximar.
Raimunda nascera em casa, em um lugarejo próximo
chamado Angueretá. O lugar era bonito, cercado por montanhas e belas cachoeiras.
Sei pouco de sua infância pobre. Frequentou pouco a escola, mal assinava o
nome. Casou-se nova e foi morar na cidade. Durante muitos anos, lavou a roupa
das famílias mais abastadas do lugar. Naquele tempo, o rio era limpo. Gostava
de seu ofício, do convívio com as outras lavadeiras. Reclamava somente que às
vezes ficava sem receber. Até hoje sente vontade de cobrar porém lhe falta
coragem. O marido não tinha trabalho fixo porém os trocados que conseguia
tinham destino certo: o bar. Raimunda era quem sustentava a casa, sempre muito
limpa. Era ela também que buscava o esposo quando, embriagado, caía na rua. Os
dois brigavam muito e ela o chamava de "cachorro". Se sentiu aliviada
quando ele veio a falecer. Dava graças a Deus por este não ter lhe dado filhos.
Pouco tempo depois, houve uma enchente na cidade e
Raimunda assistiu, atônita, a perda de todos os seus bens. A imagem do fogão
branquinho, boiando, não lhe sai da cabeça.
A partir daí teve início uma transformação interna.
Algo se quebrou dentro dela. Os documentos foram levados pelas águas e não lhe
fizeram a menor falta. Afinal, para que servem? Conseguiu alugar um barracão de
dois cômodos, próximo à linha do trem. Começou a trabalhar como catadora de
lixo e encheu a casa de cães. Os colegas de trabalho diziam que sua relação com
os animais era estranha e que ela "não batia bem da cabeça". Raimunda
trabalhava durante o dia para uma cooperativa. Após o expediente, voltava às
ruas para catar latinhas de alumínio. Essas eram guardadas dentro de sua casa.
A casa era uma imundície só, um depósito de lixo e cachorros. Sem luz nem água
encanada. Raimunda comia os alimentos que encontrava no lixo. Para os cães,
comprava ração de primeira qualidade. Comunicava-se com eles através do olhar,
dormiam juntos. Os vizinhos reclamavam do mau-cheiro e fizeram várias
denúncias. O dono do imóvel alegava que não tinha como despejá-la pois era uma
excelente pagadora.
Já lhe ofereceram uma casa na zona rural. Ela
gentilmente recusou. Não gostava de roça nem de morar longe. Sempre
desconfiada, também rejeitou a oferta de castração gratuita de seus cães. A
vigilância sanitária já bateu várias vezes à sua porta. Já tentaram tirar os
cachorros à força. Nessas horas, Raimunda ficava nervosa, chorava e entortava a
boca. Os agentes recuavam.
Ela dizia que sua saúde era boa. Tinha o costume de
ingerir todo remédio que achava no lixo. Dizia que era para "animar o
corpo". Raimunda foi avaliada por uma equipe de saúde mental e mostrou-se
lúcida. Sorriu ao dizer que não tinha nenhuma doença. A assistente social
tentou convencê-la a fazer novos documentos. Não entendeu o porquê. Não tinha
nenhum interesse em receber auxílio financeiro do governo. O que ganhava era
suficiente para o aluguel e a comida dos fiéis companheiros. E isso bastava.
Raimunda me faz lembrar de Diógenes de Sínope, um
filósofo grego que vivia em um barril e pregava que a felicidade não dependia
de nada externo à própria pessoa...
Assinar:
Postagens (Atom)