quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Raimunda e Diógenes


Conheci-a já bem degradada. Os cabelos brancos, desalinhados, engordurados, presos de qualquer jeito no alto da cabeça. As vestes sujas, velhas, cheias de pêlos e com cheiro de cachorro. Os poucos dentes que lhe restavam estavam estragados. O olhar era triste. Vagava pelas ruas empurrando um carrinho de madeira cheio de latinhas, e sua comitiva era composta por vários cães.

Era famosa na cidade em que vivia. Uma espécie de fama "às avessas". Já fôra notícia de jornal. Atrapalhava o trânsito, os cães avançavam nos motoqueiros e transeuntes. Pareciam um exército a defendê-la de quem sequer ousasse se aproximar.

Raimunda nascera em casa, em um lugarejo próximo chamado Angueretá. O lugar era bonito, cercado por montanhas e belas cachoeiras. Sei pouco de sua infância pobre. Frequentou pouco a escola, mal assinava o nome. Casou-se nova e foi morar na cidade. Durante muitos anos, lavou a roupa das famílias mais abastadas do lugar. Naquele tempo, o rio era limpo. Gostava de seu ofício, do convívio com as outras lavadeiras. Reclamava somente que às vezes ficava sem receber. Até hoje sente vontade de cobrar porém lhe falta coragem. O marido não tinha trabalho fixo porém os trocados que conseguia tinham destino certo: o bar. Raimunda era quem sustentava a casa, sempre muito limpa. Era ela também que buscava o esposo quando, embriagado, caía na rua. Os dois brigavam muito e ela o chamava de "cachorro". Se sentiu aliviada quando ele veio a falecer. Dava graças a Deus por este não ter lhe dado filhos.

Pouco tempo depois, houve uma enchente na cidade e Raimunda assistiu, atônita, a perda de todos os seus bens. A imagem do fogão branquinho, boiando, não lhe sai da cabeça.

A partir daí teve início uma transformação interna. Algo se quebrou dentro dela. Os documentos foram levados pelas águas e não lhe fizeram a menor falta. Afinal, para que servem? Conseguiu alugar um barracão de dois cômodos, próximo à linha do trem. Começou a trabalhar como catadora de lixo e encheu a casa de cães. Os colegas de trabalho diziam que sua relação com os animais era estranha e que ela "não batia bem da cabeça". Raimunda trabalhava durante o dia para uma cooperativa. Após o expediente, voltava às ruas para catar latinhas de alumínio. Essas eram guardadas dentro de sua casa. A casa era uma imundície só, um depósito de lixo e cachorros. Sem luz nem água encanada. Raimunda comia os alimentos que encontrava no lixo. Para os cães, comprava ração de primeira qualidade. Comunicava-se com eles através do olhar, dormiam juntos. Os vizinhos reclamavam do mau-cheiro e fizeram várias denúncias. O dono do imóvel alegava que não tinha como despejá-la pois era uma excelente pagadora.

Já lhe ofereceram uma casa na zona rural. Ela gentilmente recusou. Não gostava de roça nem de morar longe. Sempre desconfiada, também rejeitou a oferta de castração gratuita de seus cães. A vigilância sanitária já bateu várias vezes à sua porta. Já tentaram tirar os cachorros à força. Nessas horas, Raimunda ficava nervosa, chorava e entortava a boca. Os agentes recuavam.

Ela dizia que sua saúde era boa. Tinha o costume de ingerir todo remédio que achava no lixo. Dizia que era para "animar o corpo". Raimunda foi avaliada por uma equipe de saúde mental e mostrou-se lúcida. Sorriu ao dizer que não tinha nenhuma doença. A assistente social tentou convencê-la a fazer novos documentos. Não entendeu o porquê. Não tinha nenhum interesse em receber auxílio financeiro do governo. O que ganhava era suficiente para o aluguel e a comida dos fiéis companheiros. E isso bastava.

Raimunda me faz lembrar de Diógenes de Sínope, um filósofo grego que vivia em um barril e pregava que a felicidade não dependia de nada externo à própria pessoa...

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