É rotina nas consultas de psiquiatria indagarmos ao paciente se ele tem alguma doença preexistente assim como os medicamentos de uso contínuo. E desta vez não foi diferente:
"A sra. tem algum outro problema de saúde?" (Não psiquiátrico, obviamente)
"Tenho só problema de nervo."
"Mas a sra. já me falou do 'problema do nervo'. Quero saber de outras doenças que não sejam da cabeça."
"Então, o problema do nervo não é na cabeça."
"É onde, então?"
"É na coluna, o médico falou que tenho o NERVO ASIÁTICO."
Respiro fundo... Esse eu não conhecia.
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Insight
Um residente do primeiro ano atende uma paciente deprimida e vem discutir o caso:
- Ela está melhor hoje mas reclamou de algumas coisas.
- Quais coisas?
- Ela falou que não está tendo desejo sexual, que a memória está péssima e queixou também que não consegue chorar. Citou até o dia em que foi no velório do tio mas não derramou uma única lágrima. Mas tem uma coisa estranha... (pausa).
- O que?
- Estou aqui pensando: só nessa consulta comigo ela já chorou umas duas vezes!
Respiro fundo...
Colaboração Fabiano Pereira
- Ela está melhor hoje mas reclamou de algumas coisas.
- Quais coisas?
- Ela falou que não está tendo desejo sexual, que a memória está péssima e queixou também que não consegue chorar. Citou até o dia em que foi no velório do tio mas não derramou uma única lágrima. Mas tem uma coisa estranha... (pausa).
- O que?
- Estou aqui pensando: só nessa consulta comigo ela já chorou umas duas vezes!
Respiro fundo...
Colaboração Fabiano Pereira
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Expectativa x realidade
Uma senhorinha de sessenta e poucos anos vem no plantão porque seus remédios estão acabando:
Eu: a sra. faz tratamento psiquiátrico há quanto tempo?
Ela: Ah, deve ter mais de 20 anos...
Eu: a sra. já foi internada alguma vez por doença psiquiátrica?
Ela: Uma vez só, pra nunca mais!
Eu: Aconteceu alguma coisa na enfermaria? Bateram na senhora?
Ela: Na verdade, eu é que pedi para ser internada. Eu estava muito estressada e queria ficar deitada uns dias para colocar as ideias no lugar. O problema é que me colocaram no quarto com uma doida, doida mesmo. A mulher ficou cantando e lavando roupa no chuveiro a noite toda. Eu não preguei o olho.
Eu: a sra. não chamou as enfermeiras?
Ela: Levantei e chamei um tanto de vezes. Quando as enfermeiras chamavam a atenção dela, aí que ela ficava brava e falava um tanto de palavrão cabeludo. No outro dia, liguei cedo pro meu filho e pedi para vir me buscar.
Respiro fundo...
Eu: a sra. faz tratamento psiquiátrico há quanto tempo?
Ela: Ah, deve ter mais de 20 anos...
Eu: a sra. já foi internada alguma vez por doença psiquiátrica?
Ela: Uma vez só, pra nunca mais!
Eu: Aconteceu alguma coisa na enfermaria? Bateram na senhora?
Ela: Na verdade, eu é que pedi para ser internada. Eu estava muito estressada e queria ficar deitada uns dias para colocar as ideias no lugar. O problema é que me colocaram no quarto com uma doida, doida mesmo. A mulher ficou cantando e lavando roupa no chuveiro a noite toda. Eu não preguei o olho.
Eu: a sra. não chamou as enfermeiras?
Ela: Levantei e chamei um tanto de vezes. Quando as enfermeiras chamavam a atenção dela, aí que ela ficava brava e falava um tanto de palavrão cabeludo. No outro dia, liguei cedo pro meu filho e pedi para vir me buscar.
Respiro fundo...
sábado, 27 de outubro de 2018
Na cama box
Paciente de trinta e uns anos, usuária de maconha e cocaína, é trazida ao pronto-socorro pelo marido. Quando pergunto o que aconteceu, ela nem deixa o marido falar:
- Dra., peguei esse sem-vergonha fazendo sexo com outra mulher dentro do quarto dos meus filhos. Na mesma hora, a mulher se escondeu dentro do colchão. Eu corri na cozinha, peguei a faca e estraçalhei o colchão todo! Você acredita que a danada ainda conseguiu fugir!
Respiro fundo...
- Dra., peguei esse sem-vergonha fazendo sexo com outra mulher dentro do quarto dos meus filhos. Na mesma hora, a mulher se escondeu dentro do colchão. Eu corri na cozinha, peguei a faca e estraçalhei o colchão todo! Você acredita que a danada ainda conseguiu fugir!
Respiro fundo...
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Rins policísticos
A segunda experiencia foi com uma paciente que ficava na janelinha da urgência escolhendo o residente novo que iria atendê-la durante o ano.
Curioso, cheguei no quarto de plantão e perguntei aos colegas que muito riram - sobrou para você este ano? Vixe, tô no sal!
Fui atender á senhora, muito simpática, aliás. Com afeto pueril, déficit intelectivo moderado, obesidade grave, ia toda semanal desde 1990 ao ambulatório - ou como foi repassado “"histérica", "caso social".
Fui caçar no prontuário alguma história da paciente. Muitos rabiscos e hieróglifos, algumas manchas de café e um (CID 9 - 300) e mais tarde um (CID 10 - F60.4 ) além da prescrição de amitriptilina 25 mg ao deitar.
Por que esta senhora estaria ali por tantos anos? Na primeira semana a paciente só fazia rir, de tão envergonhada não me olhava no olho e se divertia com as consultas, mas não tinha muito conteúdo a ser analisado.
Depois de muito escutar o que não havia para ser dito, resolvi arriscar o que está proscrito em qualquer manual de psicanálise : exame fisico em paciente histérica.
Na reunião de equipe descobri que se tratava de um caso social, sabe-se lá o que isso significa isso.
Não precisei ir muito longe, apesar do "enorme risco de erotização" do contato. A senhora apresentava 230 x 160 de pressão arterial. Parei na aferição da pressão e não acreditei. Uma senhora com 120 kg, sedentária, sem nenhum registro de exame clínico no prontuário com pressão arterial tão elevada.
O sujeito psicótico ou histérico, cidadão de direito como tão bem aprendi na Psiquiatria Social não tem direito a um médico num hospital?
Aferi a apressão de pé, de ladinho, assentada, de costas. Peguei outro aparelho e tudo dando aumentado. Levei à urgência e foi medicada. Solicitei exames de função renal e encaminhei à nefrologia. Enquanto aguardava seis meses para uma consulta com o especialista fui tentando investigar. Pedi uma radiografia abdominal e, depois um ultra-som de abdome -estávamos em 1999.
Minha paciente tinha Rins policísticos dois lados , assim como a irmã dela que havia falecido 1 ano antes - e ninguém sequer havia perguntado.
Consegui, após diagnóstico, encaminhamento de urgência à nefrologia e a "paciente histérica oligofênica que não tinha nada" foi para a hemodiálise três vezes por semana
.
Continuou atendimento quinzenal comigo no ambulatório.
Este caso foi marcante para mim: teria que apagar 6 anos de Medicina para ser psiquiatra?
Por que aprendemos na residência a abrir mão do conhecimento médico para sermos psiquiatras? Por que é mais fácil apenas.
Colaboração: Márcio Candiani
Curioso, cheguei no quarto de plantão e perguntei aos colegas que muito riram - sobrou para você este ano? Vixe, tô no sal!
Fui atender á senhora, muito simpática, aliás. Com afeto pueril, déficit intelectivo moderado, obesidade grave, ia toda semanal desde 1990 ao ambulatório - ou como foi repassado “"histérica", "caso social".
Fui caçar no prontuário alguma história da paciente. Muitos rabiscos e hieróglifos, algumas manchas de café e um (CID 9 - 300) e mais tarde um (CID 10 - F60.4 ) além da prescrição de amitriptilina 25 mg ao deitar.
Por que esta senhora estaria ali por tantos anos? Na primeira semana a paciente só fazia rir, de tão envergonhada não me olhava no olho e se divertia com as consultas, mas não tinha muito conteúdo a ser analisado.
Depois de muito escutar o que não havia para ser dito, resolvi arriscar o que está proscrito em qualquer manual de psicanálise : exame fisico em paciente histérica.
Na reunião de equipe descobri que se tratava de um caso social, sabe-se lá o que isso significa isso.
Não precisei ir muito longe, apesar do "enorme risco de erotização" do contato. A senhora apresentava 230 x 160 de pressão arterial. Parei na aferição da pressão e não acreditei. Uma senhora com 120 kg, sedentária, sem nenhum registro de exame clínico no prontuário com pressão arterial tão elevada.
O sujeito psicótico ou histérico, cidadão de direito como tão bem aprendi na Psiquiatria Social não tem direito a um médico num hospital?
Aferi a apressão de pé, de ladinho, assentada, de costas. Peguei outro aparelho e tudo dando aumentado. Levei à urgência e foi medicada. Solicitei exames de função renal e encaminhei à nefrologia. Enquanto aguardava seis meses para uma consulta com o especialista fui tentando investigar. Pedi uma radiografia abdominal e, depois um ultra-som de abdome -estávamos em 1999.
Minha paciente tinha Rins policísticos dois lados , assim como a irmã dela que havia falecido 1 ano antes - e ninguém sequer havia perguntado.
Consegui, após diagnóstico, encaminhamento de urgência à nefrologia e a "paciente histérica oligofênica que não tinha nada" foi para a hemodiálise três vezes por semana
.Continuou atendimento quinzenal comigo no ambulatório.
Este caso foi marcante para mim: teria que apagar 6 anos de Medicina para ser psiquiatra?
Por que aprendemos na residência a abrir mão do conhecimento médico para sermos psiquiatras? Por que é mais fácil apenas.
Colaboração: Márcio Candiani
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Irregularidade menstrual
Sou chamada na enfermaria para atender uma paciente borderline:
- Draaaaa., estou preocupada. Minha menstruação sempre foi desregulada mas agora está muuuuito atrasada. Será que estou com alguma doença grave?
- Calma! Atraso menstrual tem várias causas, uma delas é gravidez. Você tem chance de estar grávida?
Após uma longa pausa vem a resposta:
- Só se for de sarrada!
Respiro fundo...
Colaboração: Bárbara Vilela
- Draaaaa., estou preocupada. Minha menstruação sempre foi desregulada mas agora está muuuuito atrasada. Será que estou com alguma doença grave?
- Calma! Atraso menstrual tem várias causas, uma delas é gravidez. Você tem chance de estar grávida?
Após uma longa pausa vem a resposta:
- Só se for de sarrada!
Respiro fundo...
Colaboração: Bárbara Vilela
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Carteirada
Passados quase 90 minutos de 1º consulta, começo a fazer a receita médica. Pressentindo o final, a doninha saca o cartão do convênio e deixa à mostra. Foi avisada pelo telefone que a consulta era particular e o respectivo valor. Não tenho secretária, sou eu quem cobro. Conheço esse golpe e já fico confortável com o desconforto.
"Dona fulana, eu avisei pra senhora... Não atendo convênio."
"Tá vendo? Eu não falei pro senhor que a minha memória anda ruim? Hum... mas eu nem trouxe dinheiro e nem cheque... Como é que faz?"
"Olha, essa região é bem movimentada. Têm várias agências bancárias em volta. Estou aqui o dia inteiro. Pode sacar e trazer o pagamento."
"... Mas e essa chuvinha hein? Vai ficar difícil..."
" A senhora tem que tomar mais cuidado. Imagine se um dia a senhora almoça e na hora de pagar está sem dinheiro?"
"Mas que que é isso Doutor!!! Lá em casa fica ligado na Canção Nova o dia inteiro!!!"
(...)
40 minutos depois ela volta. Sacou o valor inteiro em notas de 10 reais. Foi colocando em cima da mesa uma por uma e saiu. Isso foi em 2016. Ela é minha paciente até hoje.
#VidaQueSegue #FrustraçãoÓtimaFreudiana
Colaboração: Fabrício Durão
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