terça-feira, 26 de março de 2013
O chip no dente
Neide* foi levada ao psiquiatra pela irmã, sete meses após ter sido promovida. Trabalhava em prefeitura no interior há 18 anos e era amiga da esposa de um político. Quando este ganhou as eleições, deu-lhe um cargo de gerência de uma repartição. Seu salário triplicou. O problema é que a paciente se sentia rejeitada pelos novos colegas de trabalho. Dizia que eles mandavam indiretas e só conversavam o essencial com ela. Há um mês, Neide procurou o chefe para reclamar dos colegas e este lhe deu ferias. A partir de então, teve certeza de que o chefe, juntamente com os colegas, estava planejando algo contra ela. Conversei separadamente com a irmã de Neide. Esta me conta que a irmã teve que extrair os quatro dentes superiores aos doze anos. A familia era muito pobre e o tratamento dos dentes ficaria caro demais. Neide usou uma mesma "ponte" dentária a vida toda. Na adolescência, se isolou do mundo. Não tinha amigos e nem namorava. Há um mês, decidiu trocar a "ponte". Desde então, passou a acreditar que o dentista, a mando do seu chefe, implantara um chip em seu dente. Através do chip, o chefe a comandava à distancia. A paciente também falou para a irmã que o chefe era apaixonado por ela, porém não era correspondido. O chefe conseguia hipnotizá-la e entrava em sua casa durante a madrugada. Conversei com Neide e esta confirmou tudo o que a irmã dissera. Propus passar remédios, porém Neide recusou. Ela retornou ao consultório depois de um mês. Voltou somente para dizer que havia encontrado solução para o seu problema. Ia pedir exoneração do cargo de chefia e voltar para seu antigo posto. Mesmo com o salário menor, com certeza seria muito mais feliz.
sábado, 16 de março de 2013
Incesto
Muitas vezes ela chegava ensangüentada. Socava a cabeça na parede, machucava para valer. Precisava se sentir viva. Queria que a dor do corpo anestesiasse a dor da alma. Só que esta era muito maior... Começou a sofrer ainda criança. Ela, a mãe e os irmãos. Todos vítimas de um pai tirano. Moravam na roça, exatamente no meio do nada. O pai bebia, obrigava a mãe a beber e a pancadaria corria a solta. Por qualquer coisa, por coisa nenhuma. Ela era a mais velha e foi a primeira a ser abusada. Na cama do casal, a mãe assistia a tudo. A mãe dizia que seria morta caso ela se recusasse. E ela não via alternativa. Com o passar do tempo, as irmãs também foram violentadas. Alguém, possivelmente da família, fez uma denúncia. Ela e as irmãs foram para um lar abrigado e devolvidas para casa após poucos dias. A mãe negava tudo. E o tempo foi passando... Cada uma reagindo à sua maneira. Uma delas fugiu. Foi para a estrada, pegou carona em um caminhão e desapareceu com a roupa do corpo. Ninguém sabe dela, nem mesmo se está viva. A mãe conta a história secamente. Outra apareceu com uma doença de pele terrível, que o povo chama de "fogo selvagem". Esta tem um retardo mental e continua vivendo com a mãe. A mãe a trata como se fosse um fardo. Não se vê um pingo de afeto por parte dela. Já a filha caçula nunca se conformou. Eles eram Testemunhas de Jeová. A única ligação com o mundo era feita por meio da religião. Um dia ela tomou coragem e contou tudo para uma amiga da igreja. A amiga, escandalizada, orientou que ela denunciasse os fatos a polícia. Ela conversou com a irmã mais velha, esta tinha muito medo. Mas a caçula foi lá e denunciou. O pai foi preso. Diziam que apanhava muito na cadeia. A mãe tomou ódio dela e das irmãs. Chorava muito e dizia que só tinha dois filhos homens. Visitava o marido todos os dias, levava a comida do jeito que ele gostava. O pai pegou pneumonia e morreu na cadeia. A mãe definhou. Dizia que o amava e que não conseguiria viver sem ele. Gostava de ficar olhando para a lua, se lembrava dele. Um dia lhe perguntei se ele havia sido um bom marido. Ela disse que não, que era um traste e que sempre a espancou. Mas ela amava, e como amava... Dizia que nunca perdoaria as filhas pela morte do pai. A filha mais velha e a mais nova foram expulsas de casa. Foram acolhidas pelos irmãos da igreja. Achavam que nunca se casariam pois a cidade toda sabia da história. Ambas, porém, se casaram. A mais velha tinha um marido compreensivo, mas isso não era suficiente para ser feliz. Se achava a pior de todas as mulheres, era brigada consigo mesma. Em algumas épocas, engordava excessivamente. Em outras, ficava pele e osso. Odiava quando a mãe aparecia em sua casa. Era somente para destilar veneno. A mãe conseguia fazer com que revivesse todo aquele inferno. E ela se machucava, tentava acabar com a própria vida. A irmã mais nova não conversava com a mãe nem a recebia em sua casa. Cada qual reagindo à sua maneira...
domingo, 10 de março de 2013
Deus toma conta!
Hoje me lembrei dela. Não sei o porque. Helena era sempre calada, não gostava de confusão. Ia no hospital-dia diariamente, sempre arrumadinha e de lenço na cabeça. Quando chegávamos perto, contudo, o cheirinho denunciava que o último banho acontecera há semanas. Ela sempre estava carregando sacolas. Devia ter de tudo naquelas sacolas, especialmente coisas que ela achava interessante nas oficinas de arte e decidia levar para casa. Levava coisas dos outros também, sempre na maior discrição. O pessoal da enfermagem é que notou que a sua barriga estava crescendo. Perguntaram para ela se estava grávida e ela negou. Contou que tinha uma filha e que esta foi adotada por uma vizinha poucos dias depois de seu nascimento. Helena dizia que haviam roubado a criança dela. De vez em quando, ia para a porta da vizinha e fazia um escândalo. Depois, largava para lá. Decidimos levá-la a um ginecologista que confirmou a gravidez. Devia estar no quarto ou quinto mês de gestação. O médico perguntou sobre a paternidade da criança e ela disse que era o cebolinha (da Turma da Mônica). Iniciamos os exames de pré-natal e o teste de HIV foi positivo. E ela, nem aí... Começou a tomar o coquetel para o HIV. A dose da manhã era dada no hospital-dia, a da noite ela levava para casa. Conseguimos marcar o parto cesáreo e a ligação das trompas. Ela, porém, não esperou. No sétimo mês, entrou em trabalho de parto e teve o bebê sozinha no quartinho em que morava. Poucas horas após o parto, colocou o menino dentro de uma caixa de sapatos e foi para rua telefonar. Os vizinhos ficaram estarrecidos e chamaram a polícia. E lá se foi Helena e o bebê para o hospital. Chegando lá, tudo ficou claro para ela: eles também iam roubar o seu menino. Para que isso não acontecesse, trancou-se no banheiro com a criança. Depois de horas de negociação, aceitou abrir a porta para pegar uma mamadeira. Sentiu fome e tomou a mamadeira. Afinal de contas, o menino não devia estar com fome. Mais algumas horas e ela foi para um quarto. No dia seguinte, a família nos dá a notícia e resolvemos ir até sua casa. O quartinho era uma imundície só. E, debaixo da cama, encontramos toda a medicação para o HIV. Telefonamos apavorados para o hospital. Mãe e filho passavam bem. O teste de HIV da criança havia dado negativo e uma irmã de Helena decidiu adotá-lo. Acredito que esse filho tenha alguma missão muito especial aqui na terra. Forte e saudável, apesar de todas as adversidades. Como diz a minha mãe, Deus toma conta...
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