sábado, 16 de março de 2013

Incesto

Muitas vezes ela chegava ensangüentada. Socava a cabeça na parede, machucava para valer. Precisava se sentir viva. Queria que a dor do corpo anestesiasse a dor da alma. Só que esta era muito maior... Começou a sofrer ainda criança. Ela, a mãe e os irmãos. Todos vítimas de um pai tirano. Moravam na roça, exatamente no meio do nada. O pai bebia, obrigava a mãe a beber e a pancadaria corria a solta. Por qualquer coisa, por coisa nenhuma. Ela era a mais velha e foi a primeira a ser abusada. Na cama do casal, a mãe assistia a tudo. A mãe dizia que seria morta caso ela se recusasse. E ela não via alternativa. Com o passar do tempo, as irmãs também foram violentadas. Alguém, possivelmente da família, fez uma denúncia. Ela e as irmãs foram para um lar abrigado e devolvidas para casa após poucos dias. A mãe negava tudo. E o tempo foi passando... Cada uma reagindo à sua maneira. Uma delas fugiu. Foi para a estrada, pegou carona em um caminhão e desapareceu com a roupa do corpo. Ninguém sabe dela, nem mesmo se está viva. A mãe conta a história secamente. Outra apareceu com uma doença de pele terrível, que o povo chama de "fogo selvagem". Esta tem um retardo mental e continua vivendo com a mãe. A mãe a trata como se fosse um fardo. Não se vê um pingo de afeto por parte dela. Já a filha caçula nunca se conformou. Eles eram Testemunhas de Jeová. A única ligação com o mundo era feita por meio da religião. Um dia ela tomou coragem e contou tudo para uma amiga da igreja. A amiga, escandalizada, orientou que ela denunciasse os fatos a polícia. Ela conversou com a irmã mais velha, esta tinha muito medo. Mas a caçula foi lá e denunciou. O pai foi preso. Diziam que apanhava muito na cadeia. A mãe tomou ódio dela e das irmãs. Chorava muito e dizia que só tinha dois filhos homens. Visitava o marido todos os dias, levava a comida do jeito que ele gostava. O pai pegou pneumonia e morreu na cadeia. A mãe definhou. Dizia que o amava e que não conseguiria viver sem ele. Gostava de ficar olhando para a lua, se lembrava dele. Um dia lhe perguntei se ele havia sido um bom marido. Ela disse que não, que era um traste  e que sempre a espancou. Mas ela amava, e como amava... Dizia que nunca perdoaria as filhas pela morte do pai. A filha mais velha e a mais nova foram expulsas de casa. Foram acolhidas pelos irmãos da igreja. Achavam que nunca se casariam pois a cidade toda sabia da história. Ambas, porém, se casaram. A mais velha tinha um marido compreensivo, mas isso não era suficiente para ser feliz. Se achava a pior de todas as mulheres, era brigada consigo mesma. Em algumas épocas, engordava excessivamente. Em outras, ficava pele e osso. Odiava quando a mãe aparecia em sua casa. Era somente para destilar veneno. A mãe conseguia fazer com que revivesse todo aquele inferno. E ela se machucava, tentava acabar com a própria vida. A irmã mais nova não conversava com a mãe nem a recebia em sua casa. Cada qual reagindo à sua maneira...

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