domingo, 10 de março de 2013

Deus toma conta!

Hoje me lembrei dela. Não sei o porque. Helena era sempre calada, não gostava de confusão. Ia no hospital-dia diariamente, sempre arrumadinha e de lenço na cabeça. Quando chegávamos perto, contudo, o cheirinho denunciava que o último banho acontecera há semanas. Ela sempre estava carregando sacolas. Devia ter de tudo naquelas sacolas, especialmente coisas que ela achava interessante nas oficinas de arte e decidia levar para casa. Levava coisas dos outros também, sempre na maior discrição. O pessoal da enfermagem é que notou que a sua barriga estava crescendo. Perguntaram para ela se estava grávida e ela negou. Contou que tinha uma filha e que esta foi adotada por uma vizinha poucos dias depois de seu nascimento. Helena dizia que haviam roubado a criança dela. De vez em quando, ia para a porta da vizinha e fazia um escândalo. Depois, largava para lá. Decidimos levá-la a um ginecologista que confirmou a gravidez. Devia estar no quarto ou quinto mês de gestação. O médico perguntou sobre a paternidade da criança e ela disse que era o cebolinha (da Turma da Mônica). Iniciamos os exames de pré-natal e o teste de HIV foi positivo. E ela, nem aí... Começou a tomar o coquetel para o HIV. A dose da manhã era dada no hospital-dia, a da noite ela levava para casa. Conseguimos marcar o parto cesáreo e a ligação das trompas. Ela, porém, não esperou. No sétimo mês, entrou em trabalho de parto e teve o bebê sozinha no quartinho em que morava. Poucas horas após o parto, colocou o menino dentro de uma caixa de sapatos e foi para rua telefonar. Os vizinhos ficaram estarrecidos e chamaram a polícia. E lá se foi Helena e o bebê para o hospital. Chegando lá, tudo ficou claro para ela: eles também iam roubar o seu menino. Para que isso não acontecesse, trancou-se no banheiro com a criança. Depois de horas de negociação, aceitou abrir a porta para pegar uma mamadeira. Sentiu fome e tomou a mamadeira. Afinal de contas, o menino não devia estar com fome. Mais algumas horas e ela foi para um quarto. No dia seguinte, a família nos dá a notícia e resolvemos ir até sua casa. O quartinho era uma imundície só. E, debaixo da cama, encontramos toda a medicação para o HIV. Telefonamos apavorados para o hospital. Mãe e filho passavam bem. O teste de HIV da criança havia dado negativo e uma irmã de Helena decidiu adotá-lo. Acredito que esse filho tenha alguma missão muito especial aqui na terra. Forte e saudável, apesar de todas as adversidades. Como diz a minha mãe, Deus toma conta...

2 comentários:

  1. ué bárbara!!! virou escritora agora, é?! um abraço e parabéns pela iniciativa

    ResponderExcluir
  2. Hummm, Bárbara,
    lembro-me bem da Helena...
    Deus tomou conta pra valer!!
    Branca

    ResponderExcluir