sexta-feira, 17 de abril de 2020

Anjo da guarda


Era uma dessas noites muito frias, o vento fazia “tuim, tuim” nas janelas e eu de plantão na Pinel. A antiga Pinel da João Pessoa onde teve seu início em três casas alugadas. Muito jovem, 19 anos, fazia plantão uma noite sim outra não, e acordado. Saia do plantão, ia para a faculdade e só à noite podia dormir. Estava muito cansado, com frio e sonolento. Numa enfermaria tinham 4 doentes dormindo e uma cama sobrando. Enrolado num cobertor, espichava os olhos para a cama vazia. Quem sabe eu deito uns cinco minutos, dez talvez? Não posso, a ordem é ficar acordado. Este diálogo interior foi se estendendo até a madrugada. Lá pelas 3 e meia o sono venceu. Vou deitar uns minutos. Acordo pelas 6:30 com um grandalhão sentado na minha bacia e me estrangulando. Olhei para aquele rosto transtornado e disse: “o João, por que tu estás sentado no meu pau? Ele deu um pulo, largou meu pescoço e passou a gritar “eu não sou bicha, eu não sou bicha. Também pulei da cama e fui consolá-lo. Passados os anos, ainda vivo, posso contar esta história e só posso imaginar meu anjo da guarda de plantão.

Colaboração: Walmor J. Piccinini

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O acompanhante

Um capítulo à parte nos atendimentos em psiquiatria são os acompanhantes. Desta vez atendi uma senhora de sessenta e poucos anos, diagnóstico de transtorno esquizoafetivo, acompanhada pela irmã. A paciente estava tranquila, não queixou-se de nada e pediu somente a receita dos medicamentos. Tive a impressão de que estava com pressa para ir embora. A irmã sentou-se mais recuada e ficou muda durante o atendimento. Até que... a irmã levanta uma folha de papel onde se lia em letras garrafais: "PRECISO FALAR COM VOCÊ SOZINHAAAAA". Pedi licença a paciente e fui ouvir a irmã:
Ela: "Dra, eu sou irmã e curadora dela. Não tenho coragem de internar porque ela é sangue do meu sangue e é a única pessoa que me resta. Mas não sei mais o que fazer. Ela fazia hidroginástica todos os dias mas teve que parar por conta da quarentena. Aí eu dei um celular para ela se distrair e deu no que deu..."
Eu: "O que aconteceu?"
Ela: "Ela começou a conversar com homens em aplicativos de paquera. Ficou entusiasmada com um e mandou fotos PELADA para ele. Só que o cara é bandido. Mandou foto de um baú cheio de dinheiro e falou que ia mandar para ela. Mas, primeiro ela tinha que depositar o valor do frete para ele. Ela falou que não tinha dinheiro e ele disse que aceitava cartão, só que ela também não tem cartão. Advinha o que ela fez? Tirou fotos do meu cartão de crédito e mandou para ele. Só descobri depois que apareceram compras de 70 MIL REAIS no meu cartão!"

Respiro fundo...