A segunda experiencia foi com uma paciente que ficava na janelinha da urgência escolhendo o residente novo que iria atendê-la durante o ano.
Curioso, cheguei no quarto de plantão e perguntei aos colegas que muito riram - sobrou para você este ano? Vixe, tô no sal!
Fui atender á senhora, muito simpática, aliás. Com afeto pueril, déficit intelectivo moderado, obesidade grave, ia toda semanal desde 1990 ao ambulatório - ou como foi repassado “"histérica", "caso social".
Fui caçar no prontuário alguma história da paciente. Muitos rabiscos e hieróglifos, algumas manchas de café e um (CID 9 - 300) e mais tarde um (CID 10 - F60.4 ) além da prescrição de amitriptilina 25 mg ao deitar.
Por que esta senhora estaria ali por tantos anos? Na primeira semana a paciente só fazia rir, de tão envergonhada não me olhava no olho e se divertia com as consultas, mas não tinha muito conteúdo a ser analisado.
Depois de muito escutar o que não havia para ser dito, resolvi arriscar o que está proscrito em qualquer manual de psicanálise : exame fisico em paciente histérica.
Na reunião de equipe descobri que se tratava de um caso social, sabe-se lá o que isso significa isso.
Não precisei ir muito longe, apesar do "enorme risco de erotização" do contato. A senhora apresentava 230 x 160 de pressão arterial. Parei na aferição da pressão e não acreditei. Uma senhora com 120 kg, sedentária, sem nenhum registro de exame clínico no prontuário com pressão arterial tão elevada.
O sujeito psicótico ou histérico, cidadão de direito como tão bem aprendi na Psiquiatria Social não tem direito a um médico num hospital?
Aferi a apressão de pé, de ladinho, assentada, de costas. Peguei outro aparelho e tudo dando aumentado. Levei à urgência e foi medicada. Solicitei exames de função renal e encaminhei à nefrologia. Enquanto aguardava seis meses para uma consulta com o especialista fui tentando investigar. Pedi uma radiografia abdominal e, depois um ultra-som de abdome -estávamos em 1999.
Minha paciente tinha Rins policísticos dois lados , assim como a irmã dela que havia falecido 1 ano antes - e ninguém sequer havia perguntado.
Consegui, após diagnóstico, encaminhamento de urgência à nefrologia e a "paciente histérica oligofênica que não tinha nada" foi para a hemodiálise três vezes por semana
.
Continuou atendimento quinzenal comigo no ambulatório.
Este caso foi marcante para mim: teria que apagar 6 anos de Medicina para ser psiquiatra?
Por que aprendemos na residência a abrir mão do conhecimento médico para sermos psiquiatras? Por que é mais fácil apenas.
Colaboração: Márcio Candiani
Curioso, cheguei no quarto de plantão e perguntei aos colegas que muito riram - sobrou para você este ano? Vixe, tô no sal!
Fui atender á senhora, muito simpática, aliás. Com afeto pueril, déficit intelectivo moderado, obesidade grave, ia toda semanal desde 1990 ao ambulatório - ou como foi repassado “"histérica", "caso social".
Fui caçar no prontuário alguma história da paciente. Muitos rabiscos e hieróglifos, algumas manchas de café e um (CID 9 - 300) e mais tarde um (CID 10 - F60.4 ) além da prescrição de amitriptilina 25 mg ao deitar.
Por que esta senhora estaria ali por tantos anos? Na primeira semana a paciente só fazia rir, de tão envergonhada não me olhava no olho e se divertia com as consultas, mas não tinha muito conteúdo a ser analisado.
Depois de muito escutar o que não havia para ser dito, resolvi arriscar o que está proscrito em qualquer manual de psicanálise : exame fisico em paciente histérica.
Na reunião de equipe descobri que se tratava de um caso social, sabe-se lá o que isso significa isso.
Não precisei ir muito longe, apesar do "enorme risco de erotização" do contato. A senhora apresentava 230 x 160 de pressão arterial. Parei na aferição da pressão e não acreditei. Uma senhora com 120 kg, sedentária, sem nenhum registro de exame clínico no prontuário com pressão arterial tão elevada.
O sujeito psicótico ou histérico, cidadão de direito como tão bem aprendi na Psiquiatria Social não tem direito a um médico num hospital?
Aferi a apressão de pé, de ladinho, assentada, de costas. Peguei outro aparelho e tudo dando aumentado. Levei à urgência e foi medicada. Solicitei exames de função renal e encaminhei à nefrologia. Enquanto aguardava seis meses para uma consulta com o especialista fui tentando investigar. Pedi uma radiografia abdominal e, depois um ultra-som de abdome -estávamos em 1999.
Minha paciente tinha Rins policísticos dois lados , assim como a irmã dela que havia falecido 1 ano antes - e ninguém sequer havia perguntado.
Consegui, após diagnóstico, encaminhamento de urgência à nefrologia e a "paciente histérica oligofênica que não tinha nada" foi para a hemodiálise três vezes por semana
.Continuou atendimento quinzenal comigo no ambulatório.
Este caso foi marcante para mim: teria que apagar 6 anos de Medicina para ser psiquiatra?
Por que aprendemos na residência a abrir mão do conhecimento médico para sermos psiquiatras? Por que é mais fácil apenas.
Colaboração: Márcio Candiani
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