domingo, 3 de fevereiro de 2013

Déjà vu




Maria do Céu era uma mulher comum. Exemplar tipicamente brasileiro. Estatura mediana, cabelos escuros, grandes olhos castanhos e pele morena. Usava roupas compridas e recatadas, de gosto duvidoso. Não era bonita, porém muito inteligente. Sua profissão: dona-de-casa e mãe.

Nascera em Engenheiro Correia, distrito de Ouro Preto, nas Minas Gerais. A região, de natureza muito bela, era banhada pelo Ribeirão Sardinha. Maria do Céu foi criada pelos pais. Tinha quatro irmãos mais velhos e um mais novo. Estudou pouco, não completou sequer o ensino fundamental. Os irmãos zombavam dela, diziam que ela sempre fazia tudo pelos outros e depois ficava mal consigo mesma. Maria do Céu começou a trabalhar ainda menina em casas de família. O pai era alcoólatra e não se preocupava com o sustento do lar. Não teve adolescência. Conheceu o marido aos quinze anos e se casou pouco tempo depois. A mãe dizia que namorar era para casar. Tinha medo de que as filhas ficassem mal faladas. Naquela época, ele não bebia. Tiveram teve três filhos, um atrás do outro. Atualmente, além dos filhos, cuida da mãe idosa e adotou um sobrinho da irmã falecida.

Maria do Céu adorava essa irmã. Dizia que eram gêmeas. Aparecida, porém, era dois anos mais velha. Era bonita, tinha cabelos longos e olhos claros. Casou-se com o encarregado de uma empresa. Tinha casa bonita e carro na garagem. A mesa era farta. O marido lhe dava dinheiro para fazer as unhas toda semana. Aparecida era sensível aos apertos financeiros da irmã e sempre a ajudava. Comprava comida, roupas para as crianças. Deixava os sobrinhos brincarem com os brinquedos do seu único filho. Maria do Céu, em silêncio, sonhava em ter a vida da irmã... A mudança se deu após a morte de Aparecida. Assim que soube que estava com câncer, ela, o esposo e Maria do Céu passaram a freqüentar uma igreja evangélica. Com o passar do tempo, a doença se agravou e Maria do Céu era quem cuidava da irmã. Ela lembra que emagreceu muito, dizia ter ficado uma carcaça. Perdeu também muitas noites de sono. Via espíritos rondando o corpo da irmã durante as madrugadas. Aparecida faleceu no dia em que haviam combinado de ir a um evento religioso na capital. Neste dia, a irmã desistiu da viagem alegando não estar se sentindo bem. Maria do Céu viajou acompanhada pelo cunhado e outros membros da igreja. Ao regressarem, tarde da noite, ficaram sabendo do velório e se dirigiram para lá. Maria do Céu conta que, ao chegar, se sentiu apedrejada pelos olhares das pessoas. Chegava a ouvir os comentários de que era prostituta e que ia ficar com o marido da irmã. As palavras lhe doíam na carne.

Maria do Céu se sentiu morta assim como Aparecida. A diferença é que estava em cima da terra. Se sentia invisível. E assim ficou por três longos anos...

Passado esse tempo, ela começou a frequentar outra igreja. A situação estava difícil. O marido estava desempregado há meses e a aposentadoria minguada da mãe era o que garantia a sobrevivência. Maria do Céu se apegou fortemente a religião. A alma precisava de alívio. Lia a bíblia incessantemente e fazia jejuns. Não conseguia dormir, a mente estava a mil por hora. Um dia, pôs fogo em suas roupas e em vários objetos de casa. Dizia que a fogueira era santa e que receberia em dobro o que fora queimado. As crianças estavam amedrontadas. Começou também a falar coisas que nunca falara antes. Falou da paixão que sentia pelo cunhado e disse que aquilo sim é que era homem. Dizia estar cansada de ser babá de bebum. Aos prantos, gritava que não havia matado a irmã e que sentia uma paz muito grande por saber que ela se salvara.

Maria do Céu foi levada para o hospício em uma viatura policial. Os vizinhos ficaram boquiabertos. Chegou bastante machucada. Justificava o espancamento dizendo que o marido foi usado por uma força maligna. Queria converter a todos. Prometia o céu a quem aceitasse a sua fé. Só tomava remédio á força. Não acreditava que estava doente, se sentia perseguida por pregar a palavra de Deus. Melhorou dentro de algumas semanas. Parecia outra pessoa. Envergonhada, não acreditava no que lhe contavam, nas coisas que fizera e mais ainda nas que dissera. Pedia desculpas. Aquilo tinha sido uma armadilha do inimigo, o demônio. Queria poder esquecer tudo, principalmente o amor que sentia pelo cunhado...

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