Maria do Céu
era uma mulher comum. Exemplar tipicamente brasileiro. Estatura mediana,
cabelos escuros, grandes olhos castanhos e pele morena. Usava roupas compridas
e recatadas, de gosto duvidoso. Não era bonita, porém muito inteligente. Sua
profissão: dona-de-casa e mãe.
Nascera em
Engenheiro Correia, distrito de Ouro Preto, nas Minas Gerais. A região, de
natureza muito bela, era banhada pelo Ribeirão Sardinha. Maria do Céu foi
criada pelos pais. Tinha quatro irmãos mais velhos e um mais novo. Estudou
pouco, não completou sequer o ensino fundamental. Os irmãos zombavam dela,
diziam que ela sempre fazia tudo pelos outros e depois ficava mal consigo
mesma. Maria do Céu começou a trabalhar ainda menina em casas de família. O pai
era alcoólatra e não se preocupava com o sustento do lar. Não teve
adolescência. Conheceu o marido aos quinze anos e se casou pouco tempo depois.
A mãe dizia que namorar era para casar. Tinha medo de que as filhas ficassem
mal faladas. Naquela época, ele não bebia. Tiveram teve três filhos, um atrás
do outro. Atualmente, além dos filhos, cuida da mãe idosa e adotou um sobrinho
da irmã falecida.
Maria do Céu
adorava essa irmã. Dizia que eram gêmeas. Aparecida, porém, era dois anos mais
velha. Era bonita, tinha cabelos longos e olhos claros. Casou-se com o
encarregado de uma empresa. Tinha casa bonita e carro na garagem. A mesa era
farta. O marido lhe dava dinheiro para fazer as unhas toda semana. Aparecida
era sensível aos apertos financeiros da irmã e sempre a ajudava. Comprava
comida, roupas para as crianças. Deixava os sobrinhos brincarem com os
brinquedos do seu único filho. Maria do Céu, em silêncio, sonhava em ter a vida
da irmã... A mudança se deu após a morte de Aparecida. Assim que soube que
estava com câncer, ela, o esposo e Maria do Céu passaram a freqüentar uma
igreja evangélica. Com o passar do tempo, a doença se agravou e Maria do Céu
era quem cuidava da irmã. Ela lembra que emagreceu muito, dizia ter ficado uma
carcaça. Perdeu também muitas noites de sono. Via espíritos rondando o corpo da
irmã durante as madrugadas. Aparecida faleceu no dia em que haviam combinado de
ir a um evento religioso na capital. Neste dia, a irmã desistiu da viagem
alegando não estar se sentindo bem. Maria do Céu viajou acompanhada pelo
cunhado e outros membros da igreja. Ao regressarem, tarde da noite, ficaram
sabendo do velório e se dirigiram para lá. Maria do Céu conta que, ao chegar,
se sentiu apedrejada pelos olhares das pessoas. Chegava a ouvir os comentários
de que era prostituta e que ia ficar com o marido da irmã. As palavras lhe
doíam na carne.
Maria do Céu
se sentiu morta assim como Aparecida. A diferença é que estava em cima da
terra. Se sentia invisível. E assim ficou por três longos anos...
Passado esse
tempo, ela começou a frequentar outra igreja. A situação estava difícil. O
marido estava desempregado há meses e a aposentadoria minguada da mãe era o que
garantia a sobrevivência. Maria do Céu se apegou fortemente a religião. A alma
precisava de alívio. Lia a bíblia incessantemente e fazia jejuns. Não conseguia
dormir, a mente estava a mil por hora. Um dia, pôs fogo em suas roupas e em
vários objetos de casa. Dizia que a fogueira era santa e que receberia em dobro
o que fora queimado. As crianças estavam amedrontadas. Começou também a falar
coisas que nunca falara antes. Falou da paixão que sentia pelo cunhado e disse
que aquilo sim é que era homem. Dizia estar cansada de ser babá de bebum. Aos
prantos, gritava que não havia matado a irmã e que sentia uma paz muito grande por
saber que ela se salvara.
Maria do Céu
foi levada para o hospício em uma viatura policial. Os vizinhos ficaram
boquiabertos. Chegou bastante machucada. Justificava o espancamento dizendo que
o marido foi usado por uma força maligna. Queria converter a todos. Prometia o
céu a quem aceitasse a sua fé. Só tomava remédio á força. Não acreditava que
estava doente, se sentia perseguida por pregar a palavra de Deus. Melhorou
dentro de algumas semanas. Parecia outra pessoa. Envergonhada, não acreditava
no que lhe contavam, nas coisas que fizera e mais ainda nas que dissera. Pedia
desculpas. Aquilo tinha sido uma armadilha do inimigo, o demônio. Queria poder
esquecer tudo, principalmente o amor que sentia pelo cunhado...
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