quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A visita

As visitas domiciliares são sempre inesquecíveis... 
Essa paciente era grave e não aceitava tomar medicamentos. Era filha adotiva e a família decidiu alugar uma casa para que morasse com o companheiro e os deixasse em paz. Um irmão pagava o aluguel e lhe dava uma cesta básica todos os meses. A cesta era trocada com uma vizinha que lhe dava comida pronta. E assim ia vivendo... Todos os meses a equipe de enfermagem ia até a casa dela fazer medicação injetável e era muito mal recebida. Na véspera do meu plantão, uma psicóloga e um auxiliar de enfermagem haviam sido escorraçados de sua casa. No dia seguinte, eu e a colega enfermeira fomos intimadas a tentar... A casa até que era boa. Só não via, assim como a moradora, uma boa faxina há meses... O piso da varanda era de cerâmica revestida por uma grossa camada de poeira. Pois bem, atoladas na poeira, eu e a enfermeira batemos na porta. Após várias batidas, a paciente abre uma fresta na janela. Vestia a mesma roupa do mês anterior, estava descabelada e visivelmente irritada. Disse que não precisava de medicamento, era maior de idade e não iria nos receber. O companheiro, amarelo de tanto cachaça (e otras cositas más), estava escornado em uma cama no meio da sala e não se manifestou. Decidimos, diante da situação, pedir ajuda da polícia. Os policiais chegaram e a história se repetiu: pago meu aluguel em dia, sou maior de idade e não abrirei a porta... Um dos policiais, então, pula a janela, imobiliza a paciente e abre a porta. A casa era um caos... Não tinha como saber que cômodo era sala, quarto ou cozinha. As paredes eram escuras e havia restos de comida para todo o lado...o cheiro beirava o insuportável. A paciente, cada vez mais agitada... Após fazermos a medicação, ela é solta pela polícia e nos xinga de todos os nomes possíveis e imagináveis. Depois, se dirige aos policiais: - Vocês não podiam ter feito isso! Eu não roubo, não mexo com drogas. Quem usa droga é o meu marido! Quer ver onde ele esconde? Nesse momento, o companheiro da paciente se restabelece do porre em segundos, pula da cama e desaparece. E eu respiro bem fundo... 

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